Tapajazz coloca Alter do Chão no circuito mundial de jazz

Reportagem de Hellen Joplin, Patrícia Kalil com apoio de Jackson Rêgo Matos

O grupo de Alter do Chão “Amigos do Zé” abriu o festival com choro na praça.  Escolheram músicas autorais do saxofonista Duca e do músico e médico José Polessa, além de outros clássicos que tocam às sextas na esquina do Bar da Glória, no centro da vila.

Na sequência, chegava Yamandu e seu violão de sete cordas. Nascido em uma família de músicos, o violonista esteve em Santarém pela primeira vez quando tinha 7 anos, já acompanhando sua família de instrumentistas para uma apresentação musical. Aos 37 anos, seu talento é reconhecido no mundo todo. “Voltei agora para Santarém, 30 anos depois, convidado pelo festival. Tenho que voltar mais vezes. Quando você sente um pouco da natureza daqui, sente um pouco dessa energia que tem, ficam muitas perguntas sobre o que o governo está fazendo com a Amazônia. Como é possível querer destruir isso?

Para Yamandu, apesar de ser bem mais trabalhoso para realizadores conseguirem apoios e infraestrutura para realizar shows gratuitos ao ar livre, essa é a forma mais eficiente de estimular a cultura e devolver para o brasileiro a riqueza musical do país. “Música é remédio, faz a vida fazer sentido pelo menos por alguns instantes. É importante descentralizar esses festivais de jazz, que é muito elitista“, defende Yamandu.

O produtor cultural Guilherme Taré, cabeça e coração por trás do evento há quatro anos, mostra que um festival de música instrumental aqui em Alter traz prestígio para a vila e vai atrair pessoas do mundo inteiro. “Nossa música vai ser um cartão de visita aqui também como já é no exterior. Temos que ser persistentes, que lutar, para que isso possa ser uma realidade futura em proporções diferentes. A Amazonia tem um apelo enorme. Que não seja só um apelo de almoxarifado do planeta para buscar madeira, minério, mas que venha para conhecer a cultura e o povo da Amazônia“.

A cada edição o evento cresce. O Tapajazz já atingiu o circuito nacional de música instrumental por meio do Ministério do Turismo e, no ano que vem, terá suas primeiras atrações internacionais, com um grupo holandês. Taré já trouxe para se apresentar na praça da vila outros gênios, como Hermeto Pascoal (na segunda edição, em 2015), e no ano passado, só com talentos regionais, o festival terminou com show Sebastião Tapajós, Ney Conceição e Mestre Solano.

Na segunda noite, o grupo regional Kuató de Carimbó lotou a praça. Sem cadeiras reservadas, a rua se transformou em movimento, alegria e dança.

O mestre Sebastião Tapajós tem dado seu total apoio e tocou em todas as edições do festival.

Após sua apresentação no último dia do evento, contou com alegria como é ver o evento crescendo e sendo acolhido pelos moradores: “O festival tem crescido bastante e o Taré está de parabéns. Aqui não tocamos aquela música que você ouve todo tempo na mídia, mas uma música que infelizmente não tem espaço, de músicos brasileiros que viajam pelo mundo e não é à toa“.

 Entrevista completa com Yamandu Costa:

TRECHO PARA DAR ÁGUA NA BOCA: “Meu pai conta que Yamandu era um cacique tipo xamã que previa o tempo, na época na aldeia ele tinha esse dom de falar com o tempo e com as forças da natureza. Um nome muito usado no Uruguai, de uma tribo Charrua (descendentes do grupo Tapuia), uns índios superguerreiros naquela região do sul do Brasil, e meu pai era apaixonado por um poeta uruguaio chamado Yamandu Rodriguez, que foi o primeiro poeta a escrever um livreto de ópera na América Latina, um intelectual muito importante. Hoje em dia acho superbacana ter esse nome e poder levar de alguma maneira um pouco da tradição indígena do nosso continente”.

Entrevista completa com Guilherme Taré:

TRECHO PUXANDO A ORELHA DAS LINHAS ÁREAS: “Na Amazônia, tudo é muito mais difícil, tudo é muito mais longe. A logística é muito maior. Já passei por várias dificuldades de realização de eventos por conta de logística. Muito mais difícil que captar recursos é enfrentar o cartel das linhas aéreas. Elas não respeitam nada, você paga passagens mais caras para vir para Santarém que ir para Miami”

 

 

 

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Por Jackson Rêgo Matos – Presidente do Instituto Sebastião Tapajós, membro da Alas e IHGTap e Professor da Ufopa.

Categories: Tapajazz

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