Outros carnavais: os riscos da industrialização do boto

O Çairé 2017 agitou Alter do Chão por duas semanas e teve protesto Munduruku contra as hidrelétricas no Tapajós, gritos de Fora Temer e outras polêmicas que renderam muito debate na vila: a alteração da data do evento pela prefeitura sem consultar a comunidade para revolta dos catraieiros, seguida da construção do muro de alvenaria na praça do Çairé que também pegou as casas ao redor da praça de surpresa, na sequência o bochicho sobre a frustração de famílias tradicionais que perderem o espaço das barracas para a prefeitura e na hora que o show estava para começar a indignação generalizada dos moradores com o preço do ingresso e a falta de convite cortesia ou preço especial para quem é de Alter. 

Quando se percebe o esforço para o crescimento comercial do Çairé, é inevitável fazer uma comparação com o Festival do Boi, que acontece anualmente três meses antes em Parintins. A festa do Çairé em Alter é ainda menor e simbolicamente muito mais ligada às raízes amazônicas. Para começar, a disputa folclórica é feita entre dois botos, seres do imaginário fantástico da região, e não por dois bois, animal introduzido na Amazônia numa estratégia de ocupação do território e hoje principal responsável pelo desmatamento.

O envolvimento dos moradores antigos da vila no ritual religioso é muito importante e a ênfase que tem sido dada à competição dos botos tem esmagado a tradição. Com isso, temos que debater na vila o risco da “industrialização da festa”, como ocorreu com as escolas de carnaval do Rio e São Paulo. Hoje, ir à Sapucaí para assistir aos desfiles ou seguir sambando na avenida é inacessível para grande parte do público. A crítica que se faz ao carnaval industrial é que ele padronizou a festa e fez virar um produto de TV (que é efetivamente quem ganha dinheiro com anunciantes durante as transmissões ao vivo).

Esse ano, a preocupação das Associações dos Botos em ter carros alegóricos no estilo de Parintins foi tão grande que foram contratados artesões de lá. Os artistas locais reclamaram.

 

 

“A principal mensagem que o Çairé passou este ano foi o resgate da nossa cultura, que é a verdadeira expressão das apresentações. A festa é nossa, mas o governo quer tirar a festa da gente. O Çairé 2017 começa a mostrar resistência de alguns lados da nossa comunidade” – rainha do Boto Cor de Rosa, Maria Eulália Lobato

No compasso da padronização do evento, a prefeitura construiu no último mês um muro para limitar o botódromo que chamou de novo Lago dos Botos na praça. “Um espaço que se usa só uma vez por ano, enquanto a vila não tem coleta nem tratamento de efluentes, não tem boa recepção ao turista, não tem calçada, nem ciclovia. Mas tem praça murada!”, pontuou um morador. O artesão Eduardo Basso que tem sua casa virada para o novo muro está indignado. Ele não é contra limitar a área da competição, mas acha que a vila merecia ter sido consultada para discutir alternativas diferentes e mais apropriadas para o contexto e uso da praça ao longo do ano, como um gradeado mais barato que permitiria ainda ver as crianças jogando futebol sem impedir a circulação de vento.

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Visão geral da competição dos botos na festa do Çairé em Alter do Chão
Por Hellen Joplin e Patrícia Kalil, com fotos de Paddy Claudio Chena

 

Entrevista com Pinduca
Um bate-papo muito agradável com o Rei do Carimbó depois de show no Çairé.
Por Diogo Borges Carneiro – morador da vila, músico do Kuatá de Carimbó e professor de biologia em Santarém.

 

 

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Categories: Çairé

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