Movimento do Carimbó do Oeste do Pará durante II Congresso em Alter do Chão

O dia 11 de setembro de 2014 é um marco histórico para o carimbó no Pará. Após 13 anos de luta mobilizada pela Irmandade de Carimbó de São Benedito, pela Associação Cultural Japiim, pela Associação Cultural Raízes da Terra e pela Associação Cultural Uirapurú, os carimbozeiros comemoram nesta data o título de Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro.

II Congresso de Carimbó do Oeste do Pará | Foto de Palestina Israel
POR MAEL MONTEIRO E ROSA MARIA | FOTOS DE PALESTINA ISRAEL

Os tambores que ressoam das bandas de carimbó do oeste do Estado não foram inicialmente incluídos no dossiê feito Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) sobre o ritmo amazônico de origem indígena. Apenas com a articulação do Movimento do Carimbó do Oeste do Pará (MCOP), o “Carimbó Praiano”, nossos tambores foram adicionados no documento, que está na fila para ser publicado. Porém, para os carimbozeiros locais, a inclusão no registro é apenas uma etapa para o principal objetivo do movimento: salvaguardar o carimbó.

Foto de Palestina Israel

Durante o dia 16 de setembro de 2017, no Ponto de Cultura da Oca da Vila de Alter do Chão, mestres, compositores, tocadores e dançarinos dos grupos que atualmente fazendo parte do Movimento – Cobra Grande, Kuatá, Cumaru e Banda Tambor – se reuniram para pensar o assunto e encaminhar suas propostas. O evento também contou com a presença do superintendente em exercício do IPHAN, Ciro Lins, do Coordenador da Associação de Carimbó do Estado do Pará, Mestre Manoel, do Grupo Uirapuru de Marapanim e do secretário de cultura de Santarém, Luís Alberto Figueira (Pixica).

O evento iniciou com uma grande roda onde os carimbozeiros puderam se expressar na sua melhor forma: tocando, cantando e dançando carimbó. Após o aquecimento, Mestre Chico Malta, do grupo Cobra Grande, convidou todos a darem as mãos e celebrar por todos os mestres e mestras que mantiveram viva esta cultura centenária que agora está sob nossos cuidados. Mestre Chico fez saudação aos nossos ancestrais indígenas, ao povo africano e europeu e também aos mestres locais como Silvito Malaquias, compositor do grupo Espanta Cão, nativo da região, e cuja neta também estava presente no congresso, a indígena Damillies Ribeiro, presidente da Associação Indígena Borari de Alter do Chão.

Foto de Palestina Israel

Em seguida iniciou-se uma roda de conversa conduzida por Mestre Manoel e Ciro Lins (IPHAN) atualizando os participantes sobre os desafios atuais do movimento pós patrimonização. Ciro sugeriu a construção de um conjunto de ações, de curto, médio e longo prazo, destinadas a apoiar os grupos de carimbó para melhorar as condições em defesa dos direitos relacionados ao uso e à difusão desse patrimônio e a capacitação dos detentores a liderar e gerir processos de salvaguarda. Mestre Manoel, destacou que o movimento precisa buscar união para se fortalecer e gerar autonomia em toda cadeira produtiva do Carimbó: os tocadores, mestres, dançarinos, artesãos, costureiros, entre outros.

O grupo fez uma pausa para um almoço coletivo preparado pelos próprios carimbozeiros, uma pequena mostra da fartura de peixes da região. À tarde os trabalhos retornaram com uma nova dinâmica conduzida por Chico Malta que culminou com a formação dos grupos de trabalho destinados a pensar coletivamente o carimbó no sentido de propor políticas públicas relacionadas a quatro grandes temas: Turismo, Meio Ambiente, Cultura e Educação.

Foto de Palestina Israel

No campo das políticas culturais foi identificada a necessidade de reconhecimento do Movimento através de apresentação das suas propostas para a Secretaria de Cultura de Santarém e a participação dos grupos no calendário das festividades locais, como por exemplo, o Sairé, principal festival religioso e cultural de Alter do Chão. Também foi levantada a necessidade de apoio a projetos de gravação de discos autorais pelos setores públicos e privados como incentivadores da cultura tradicional. Ganhou destaque nesta discussão a inclusão de representantes do carimbó no Conselho Municipal de Cultura para criação e gestão do Sistema Municipal de Cultura de Santarém, um órgão responsável por gerir democraticamente a destinação dos recursos da secretaria para fomentar as atividades culturais do município.

No que diz respeito ao Meio Ambiente, o grupo de trabalho ressaltou que parte da sociedade ainda identifica o carimbó como poluição sonora (Lei do Silencio) em dissonância com a livre expressão da cultura tradicional, que segundo o Art. 215. da Constituição, o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. Na prática, há casos de repressão policial frente às apresentações dos Mestres e grupos de Carimbó em espaços públicos. Batuque de tambor feito na rua por caboclos e negros sendo constrangido não seria uma forma de racismo institucional?

Foto de Palestina Israel

Outra inquietação levantada pelo MCOP referente ao Meio Ambiente são os processos de degradação ambiental que a região vem enfrentando. Verificou-se a necessidade de alinhar o discurso dos grupos sobre as questões ambientais utilizando o carimbó como instrumento de denúncia e conscientização ambiental através das letras e do posicionamento político. Dessa forma busca-se aproximação do Movimento com órgãos ambientais para ações de educação ambiental, tais como secretaria de meio ambiente, ongs, escolas e universidades.

 

Categories: Carimbó

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