Nesta edição de aniversário de 20 anos de “O Boto”, quero escrever para vocês, leitores e leitoras que nasceram em 2017, junto com esta agência de comunicação genuinamente amazônica. Naquele ano “O Boto” teve origem como um movimento articulado por um “aplicativo de mensagens de celular”. Provavelmente seus pais ou avós já contaram algum caso sobre o “WhatsApp”. É verdade… quando tínhamos a idade de vocês, minha geração se comunicava digitando em telas físicas, em pequenos dispositivos de metal e plástico que precisávamos levar conosco para todos os lugares. Mais incrível ainda, tínhamos que parar pelo menos uma vez por dia e usar cabos para liga-los a fontes de energia!

Por Marcio Halla, “Babi”
Foto de Alex Fisberg

Agora que estou completando 40 anos, quero contar mais sobre aquele ano em que tudo mudou na história de Alter do Chão. Em setembro de 2017, participei de um movimento que mudou os rumos do desenvolvimento de Alter do Chão. Se não tivéssemos feito aquilo, não teríamos hoje esta paz, as florestas e savanas ao redor do Lago Verde, uma água tão limpa e este clima tão agradável… Alter não seria mais chamada de Vila e já teríamos perdido nossa vida em comunidade.

Naquele momento, impedimos que fosse autorizada a construção de grandes prédios, que fossem abertos loteamentos sem qualquer critério, enfim, que a voracidade de especuladores imobiliários e interesses meramente econômicos descaracterizassem Alter do Chão por completo.

Graças àquele movimento, hoje estamos tão bem organizados, com nossos Conselhos Distritais funcionando, tomando decisões sobre o que queremos e sendo respeitados pela prefeitura municipal de Santarém (por pouco tempo, enquanto não é aprovada nossa emancipação, que já passou pelos estudos de viabilidade e pelo plebiscito!).

Foto de Alex Fisberg

O sistema de governança e a autonomia que temos hoje teve início justamente num momento como este em que estamos agora, na ocasião da primeira revisão do Plano Diretor de Santarém. Agora que estamos na terceira revisão, para mim parece um sonho ver a geração de vocês protagonizando este processo, discutindo qual é o futuro que vocês querem. Pensando e propondo qual é a Alter do Chão que queremos em 2057, quando vocês tiverem a minha idade e eu estiver curtindo meus 60 anos nas nossas lindas e preservadas praias!

É emocionante… principalmente porque naquele momento, exatamente 20 anos atrás, no dia 28 de setembro de 2017, acreditem, eu era o único jovem naquela reunião, no antigo Salão Paroquial, que não tinha esta estrutura tão harmonicamente integrada à bela arquitetura da Igreja. Naquele dia o Secretário Municipal de Planejamento veio com sua equipe, para realizar uma oficina com a
nossa comunidade, e aquele grupo de aproximadamente 30 pessoas propôs algo totalmente diferente do que eles esperavam. Ali estava nascendo o histórico movimento político #ocupacamara, quando os vereadores e a administração pública municipal passaram a olhar para a comunidade de Alter do Chão com outros olhos. Apenas quatro dias após aquela reunião a Câmara foi ocupada por nossa comunidade e um Projeto de Lei perverso foi enterrado para sempre.

Foto Alex Fisberg

Como estamos contando o tempo de 20 em 20 anos , vou falar sobre algo que meus pais sempre me contaram. Quando eu nasci, em 1997, a comunidade de Alter do Chão estava realizando estudos e articulações para a criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) que seria gerenciada pelo governo federal, pelo Ministério do Meio Ambiente. Em 2003, quando o processo estava bem avançado, os prefeitos de Santarém e Belterra, políticos comprometidos justamente com aqueles “interesses meramente econômicos” e a já citada “voracidade de especuladores”, desfiguraram a proposta e criaram duas APAs municipais.

Foram apenas papeis, decretos imediatamente engavetados que só serviram para manter o “galinheiro” sob os olhos atentos e interesseiros das “mucuras”. Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, meu professor da Escola Indígena Borari levou minha sala para uma reunião naquele mesmo Salão Paroquial, que tinha a ver com a tal APA. Depois de 9 anos, a comunidade estava transformando aquela ideia, aquele papel, em realidade. Foi o primeiro movimento de uma longa história, que resultou nesta incrível conservação dos nossos ecossistemas e neste tão eficiente sistema de gestão ambiental que temos hoje.

Fiquei impressionado naquela reunião, em 2012, porque só estava acostumado a ver tanta gente da comunidade reunida em dia de festa! Nós, os alunos, participamos só por algumas horas, mas meus pais e meu professor estiveram lá por 4 dias. Para ser sincero, achei bem chata aquela reunião, com a discussão de regras que me pareceram bem burocráticas. E se tinha uma coisa que eu não gostava, era de regra!

Foto de Alex Fisberg

Mas eu mal sabia que aquele documento que estavam elaborando, o Plano de Uso da APA, seria a base para a visão de desenvolvimento de Alter do Chão, que foi incorporada ao Plano Diretor de Santarém. Visão que nos guia até hoje…

Em 2017, com 20 anos, apesar de não ter conseguido convencer meus amigos a participarem, eu já era consciente da importância da mobilização e da organização social, da luta para garantir nossos direitos. Naquela reunião com o Secretário de Planejamento, participando da elaboração de um documento que foi entregue para ele, fiquei pensando no valor do tempo perdido.

Aquele plano de uso, que era um resumo da visão de futuro da comunidade, ficou sem validade, sem vigência, sem força alguma, durante 5 anos! Fiquei pensando que, com 15 anos, em 2012, eu gostaria de ter aquela consciência que tinha aos meus 20 anos, que ainda era muito pouca, comparada a esta que a juventude de Alter do Chão tem hoje. Mas como eu poderia ter esta consciência e uma postura mais propositiva e proativa em 2012, se a comunidade, de forma geral, não tinha? Não era muito diferente de quando eu tinha 6 anos.

Foto de Alex Fisberg

Meus pais contam que, ao ser criada a APA municipal, em 2003, a comunidade, que queria a APA federal, não contestou. Pelo contrário, acomodou-se e ficou esperando a ação da prefeitura, que só aconteceu em 2011, quando a partir da iniciativa local e provocada pela comunidade, a prefeita homologou o Conselho Gestor da APA. Mas foi só isso, nenhum outro ato veio da prefeitura.

Quando o Plano de Uso foi aprovado, meu professor trouxe a notícia para a sala de aula. Lembro que era o último dia de aula e eu estava só pensando nas férias. Ao chegar em casa, conversamos sobre isso no jantar e meus pais comentaram que a partir daquele dia as coisas iriam melhorar. Aquele era o ano de 2012, ano de eleição. Depois de pouco mais de um mês, um novo prefeito e um novo secretário de meio ambiente assumiram, e mais uma vez o discurso da comunidade foi:

“agora temos que esperar, não adianta mais pressionar a prefeitura, porque o novo secretario precisa de tempo para colocar a casa em ordem e a APA pra funcionar. Não podemos atrapalhar”.

Foto de Alex Fisberg

Pois então, se passaram 4 anos, uma gestão completa, todo aquele movimento foi desarticulado e as coisas, mais uma vez, só pioraram.

Entre 2013 e 2017 a vila sofreu uma explosão imobiliária, teve um surto de hepatite devido à contaminação das águas, quando não existia a rede e a estação biodigestora de efluentes, e quase foi destruída nossa fantástica Floresta Encantada e toda a área de savana, onde estão as preservadas nascentes dos Igarapés Cuicuera, Camarão e Macaco.

Finalmente, independente da vontade do poder púbico municipal, no processo da primeira revisão do Plano Diretor e da derrubada do Projeto de Lei da verticalização de Alter do Chão, como ficou conhecida aquela aberração política, a comunidade se uniu novamente e decidiu assumir a direção para definir os rumos a serem tomados. No auge dos meus 20 anos, havia uma energia de renovação no ar.

Uma corrente teve início e as conquistas da luta comunitária começaram a acontecer. Vieram o Plano de Manejo da APA, o Código Paisagístico Arquitetônico de Alter do Chão, o Plano de Turísmo Sustentável, a tão sonhada homologação da Terra Indígena Borari, enfim, vários processos, projetos e leis que nos trouxeram até onde estamos hoje.

Foto de Alex Fisberg

Muita coisa já estava bem diferente na segunda revisão do Plano Diretor, em 2027, quando vocês deviam estar brincando, fazendo esportes ou alguma atividade cultural no recém inaugurado Centro Esportivo Cultural Jovem Borari, construído quando foi aprovado um dos grandes projetos do Instituto Alter do Chão. Um momento mágico, que até hoje me faz vibrar de emoção, foi a criação desta organização, formalizada após a união do Conselho Comunitário, da Associação Indígena Borari e de todas as associações comunitárias.

No dia da fundação deste Instituto, em 2020, eu compus a mesa representando a Associação de Jovens e fiz parte daquele momento histórico, quando o Conselho Gestor do Instituto foi criado com representantes de todos os setores, grupos, entidades. O Acordo de Princípios e Valores Comunitários de Alter do Chão, ali aprovado por aclamação, foi um divisor de tempos. Na verdade, foi um divisor que marcou o fim das divisões! Naquela grande roda, de mãos dadas, estavam indígenas e não indígenas, os nativos e os “de fora”, empreendedores locais e “hippies” (aliás, foi a última vez que ouvi estes dois termos: “de fora” e “hippies”!). Ali, sentimos que somos Alter do Chão. Sentimos unidade. Somos
comunidade!

Foto de Alex Fisberg

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