POR PATRÍCIA KALIL, VIA SERES FANTÁSTICOS DA AMAZÔNIA

Senhoras e senhores, com vocês a primeira história do magnânimo, do magnético, do magnífico, do amagzônico Magnólio! Ele, amigo da mulher do homem que come raio-laser, estava em Tauarí com seu fabuloso Gran Circo Mocorongo. Antes do espetáculo, passou a manhã conversando com os moradores para descobrir conhecimentos tradicionais e tentar fazer, com eles, um diagnóstico comunitário da situação da vila. Perguntava: “O que você sabe que ninguém sabe que você sabe?”

Papo vai, papo vem, descobriram entre eles um astrólogo, um mágico que sabia fritar ovos na casca e um homem que sabia de cabeça o alfabeto militar. Depois contaram que o espírito comunitário estava doente desde que “um lá” (sujeito voador não identificado) havia decidido cortar e queimar o tauarizeiro na entrada da gruta da mãe de todos os tucunarés, submersa dentro do igarapé. Nesse momento, um morador disse: “E se alguém fosse atrás de uma muda de taurí para replantar o nosso pé?”

A grande missão foi destinada para o nosso magno palhaço, que desde o momento em que chegou não estava sozinho, totalmente cercado de carapanas. Para não se perder na mata, seria acompanhado pelo velho gnomo Sargento, um profundo conhecedor daqueles caminhos e, entre os moradores, o mais recomendado para tão especial ocasião. “O que você sabe que ninguém sabe que você sabe?”

Sargento conhecia todos os atalhos, cheiros e o canto de cada passarinho daquela região, famosa também pela centopéia gigante que morava por lá. Os dois foram conversando, enquanto Magnólio procurava o tal tauarizinho. Andaram pra lá e pra cá, devagar e rápido, cheios de esperança. Magnólio estava confiante, Sargento parecia saber aquele caminho do avesso, fazendo peripécias como pular antigos troncos caídos pelo caminho mesmo com a cabeça virada para o outro lado. Caminharam, caminharam e nada. Magnólio, grande devoto de São Longuinho, não ousou pedir essa ajuda ao santo e preferiu confiar no destino. Andaram até à noite, sem sucesso. Sargento já fazia o caminho de volta, meio quieto diante da tristeza do palhaço. “O que você sabe que ninguém sabe que você sabe?”

Magnólio disse: vamos sentar aqui um pouco, merecemos.
Sargento respondeu: só se você me ajudar.
Magnólio perguntou: claro, mas por quê?
Sargento virou seu rosto para o palhaço e respondeu: porque sou cego.

Histórias reais do amagzônico Magnólio 

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Categories: Certas palavras