Em visita à pequena vila de Alter do Chão, a cantora Patrícia Bastos deu entrevista exclusiva para nosso repórter-boto musical Diogo Borges Carneiro. Na conversa, ela fala sobre a música da Amazônia e sobre a diferença entre mercado e cultura. “Sempre procuro cantar minhas raízes, minha verdade, eu acredito nessa verdade, talvez eu acho que esse é o maior sucesso. Busco manter a essência da nossa música”. Leia entrevista completa:

POR DIOGO BORGES CARNEIRO

 

Se é forte, é do Norte?
Patrícia: Exatamente. Se a gente acredita, a gente vai longe. A música da Amazônia é algo novo que todo mundo adora. A gente precisa chegar e fazer o melhor. Acreditar. Eu sei que a gente caminha de um lado contrário, vê todo mundo fazendo sucesso, um aqui, outro ali. Eu acredito em outra coisa. Continuo acreditando na essência da música da Amazônia, essa música que tem que ser lapidada. Vou por esse caminho, vou me embora e vou contando a minha história paralelo a tudo isso. Eu não vou me mascarar, não vou deixar de fazer o que eu gosto para chegar na Globo, porque meu sucesso tem que ser a história da gente, a gente tem a nossa verdade, a gente tem que ir devagarinho, devagarinho, a gente vai plantando, plantando, colhendo e espalhando, sabe, com muito cuidado e ganhando respeito, então eu acredito nisso.

No seu espaço e no seu tempo…
Patrícia: Eu não tenho pressa para nada. Quero que essa música amazônica seja conhecida, mas na sua essência. Com esse respeito. Não é o sucesso passageiro. Pode ser que esse trabalho seja reconhecido um dia em que eu nem esteja mais aqui. Essa aí é a nossa história. É isso que eu busco, o que quero deixar. Que prazo a gente tem? Você não pode deixar de ser feliz, tem que fazer o que gosta. Equilíbrio, foco. É nessa vida que a gente tenta ser feliz, como a gente aprendeu desde criança, pisando firme no chão, sem tirar o pé. Gosto de estar onde as pessoas estão sorrindo, abraçando, beijando, compartilhando a alegria, a música, a poesia. Para mim é isso que me faz feliz e é isso que me faz cantar.

Desde quando canta?
Patrícia:A mamãe era quem botava para estudar. Dizia: “Vai estudar, vai fazer canto, vai fazer coral, vai estudar piano”. A mamãe sempre incentivou a gente, eu e meus irmãos. Todos nós passamos pelo Conservatório para aprender a cantar, aprender a tocar algum instrumento. Fiz coral dos nove aos quinze anos. Coral ensina você a cantar em grupo, a respeitar o cara que está cantando ao teu lado, a ouvir. Todo mundo tem que se ouvir. Ouvir, para mim, é a maior escola. E assim é o meu aquecimento: gosto de acordar e cantar. A gente mora num lugar que é privilegiado, não tem poluição, quase, a gente pode cantar com os pássaros.

Sua família é de músicos, não é?
Patrícia
Minha mãe é cantora, compositora, vem de uma família de cantores e compositores. Meu pai é também é músico e um apreciador de música. Foi a pessoa que mais deu incentivo dentro de casa, para toda a família e, especialmente, para Mamãe, pra que ela fosse uma cantora. Ele fortaleceu em vários sentidos, sempre teve muitos discos. Tive uma infância regada a tudo.

Quais tipo de música seus pais ouviam em casa?
Patrícia
: 
Primeiro, o choro e o samba. Pinduca foi a primeira música regional que ouvi. E boleros. Meu pai gostava de música internacional, ouvíamos muito caccicó, merengue e zouk na nossa casa. Tanto o caccicó quanto o zouk são da Guiana Francesa,  que é fronteira com Macapá (Amapá). É uma música criola. Hoje em dia, isso tudo tem uma influência muito grande dentro do meu trabalho, pelo fato de eu conhecer, crescer ouvindo isso. Nós temos a nossa música, o marabaixo e o batuque. Dentro do batuque a gente tem essa mistura, no batuque do Curiaú, essa é uma música afro, que tem a mistura do caccicó com o nosso batuque. Você vê isso nas faixas “Tudinha acessa” e “Causou”. Esses tambores, a mistura do curiaú do caccicó da Guiana Francesa.

Qual instrumento você escolheu?
Patrícia: 
Eu toquei piano, flauta, mas aí depois eu não quis mais saber, só quis saber de cantar. Acho que puxei um pouco para o meu pai nesse ponto de gostar de ouvir música, então eu amo ouvir música, pegar um disco, na época, o vinil, e ficar vendo ficha técnica. Ouvindo e lendo as músicas, vendo de quem era a letra, quem fez aquele arranjo, eu amava fazer isso. Era como se fosse um livro pra mim e até hoje eu costumo fazer isso ainda. Eu fico muito agoniada com essa coisa hoje em dia que tu entra no you tube tu pega, tá ouvindo a música, tu não sabe nem quem é, (quem é que canta), mal tu sabes quem canta, tu não sabes quem fez o arranjo, tu não sabes quem está tocando… Chega a dar uma cuíra* querendo saber quem é, então pra mim isso não dura, não faz muito sentido (pra mim) eu gosto de pegar ainda o disco, pegar o CD e ficar ali sentadinha vendo.

Que voz te deixou emocionada pela primeira vez? Quem você escutou e falou: é isso que eu quero fazer?
Patrícia: A
cho que a primeira voz que me tocou foi da minha mãe… minha mãe cantarolava, na casa, no quintal, a mamãe sempre (que estava) fazendo alguma coisa dentro de casa, ou de manhã cedo, quando acordava a mamãe já tava cantando, se arrumando pra ir trabalhar, e já cantando.

Sua mãe ainda canta profissionalmente?
Patrícia:
Canta e todo mundo fala que nossa voz é muito parecida. O nome dela é Oneide Bastos. Ela tem uma voz muito jovem, ainda compõe, é muito ativa na música. Não sei se eu tenho algum CD, mas você encontra. Em dezembro, ela estará fazendo shows no Rio de Janeiro.

Você tem “padrinhos” famosos da música? Como conheceu algumas pessoas?
Patrícia:  Acho que a gente tem vários padrinhos e várias madrinhas durante diferentes etapas. Uma das pessoas que me incentivou muito além foi Paulo, o Paulinho Bastos, meu irmão que é dois anos mais velho que eu. Ele foi o cara que me jogou no fogo, pediu para eu cantar numa banda quando eu tinha quinze anos e disse “tu vem fazer com a gente”. Fui com a cara e a coragem e… cantei lá na banda deles. Era uma banda de carnaval, mas cantava tudo, até música internacional. Depois que eu entrei pra uma banda de Macapá, a Brinds, que tinha recebido os grandes nomes. Sonhava em cantar com eles e foi lá que eu comecei mesmo, profissionalmente. Ronildo Leal foi quem me deu a oportunidade. Na banda, a gente cantava bossa, samba, choro, música internacional, cantava de tudo. Era uma banda de baile, inclusive fazíamos carnavais de cinco noites em Macapá. Hoje em dia acho que é o Dante Ozzetti que além de um parceiro, é aquele cara que acreditou no meu trabalho, acreditou em mim, no marabaixo e no batuque. 

Quando começou a parceria com o Dante?
Patrícia: Conheci Dante, pessoalmente, em 2010, mas já conhecia antes o trabalho dele e da Ná Ozzetti. Escuta o álbum “O Estopim”, que é lindo. Você fica ouvindo, folheando… Aí vai lá “quem é esse Dante Ozzeti”? Consegui o contato dele com uma amiga em comum. Mostrei meu trabalho. Em seguida, fizemos a primeira parceria com o Joãozinho Gomes, que entrou no disco “Eu Sou Caboca”. É a canção “O demônio de batom”. Depois, pedi para ele fazer um arranjo e foi fantástico! Dante não conhecia o marabaixo, mas foi pesquisar para fazer aquela música. O arranjo é lindo, lindo, muito baseado no trabalho que ele estava fazendo em “Achou”. Os instrumentos, as pessoas que tocam com ele. Ele pegou, colocou o marabaixo na música e é uma música que eu canto até hoje, é muito pedida. Nossa parceria começou assim. Depois logo convidei Dante pra fazer o Zulusa comigo. Ele disse: “vamos”. Arranjou o disco com o Du Moreira. Escolhemos o repertório com cuidado. Um disco para a gente. Aí ganhamos dois prêmios da música brasileira: como melhor álbum, para Dante e para o Du, e melhor cantora, para mim.

Seu repertório é maravilhoso! O que te faz escolher uma música?
Patrícia: O conjunto de tudo: a melodia e a letra, a poesia. Falando em poesia, que poeta e compositor é o Joãozinho Gomes. Ele tem isso que eu gosto, são os parceiros. A melodia, a música e a poesia em primeiro lugar. Então não pode ser só uma letra, ela tem que ter tudo. Seleciono o que me toca. Dante é aquela pessoa que chega e equilibra: “isso está legal”, “a gente tira essa”, “a gente compõe uma nova”. 

O que acontece com as músicas que acabam não entrando no álbum?
Patrícia: Ficam guardadas. A gente acaba gravando em outro trabalho, são todas músicas lindas. Gosto de compartilhar também com as pessoas que vão gravar. Faço isso, eu não gosto de ficar só pra mim, se eu vejo que tem alguém que está fazendo um trabalho legal, se é uma cantora que é legal, que promete, eu digo toma, olha, ouve isso, ouve aquilo, ouve o João, ou se é uma compositora, poxa faz uma parceria com o Joaozinho Gomes, olha faz uma parceria com o Dante, que é bom pra ambos né, essa…

É uma rede de troca, de amizades
Patrícia: É… Encontrei uma grande irmã nesse caminho, a Ná Ozzetti, alguém que eu me espelhei muito pelo trabalho e que é fantástica. Os discos dela são lindos, eu sei que sempre tem o dedo dela ali, são coisas únicas. Tive a honra de tê-la no meu disco “Batom Bacaba” cantando duas músicas comigo. Agora a gente está fazendo um trabalho juntas, cantando juntas música do Dante, do Luiz Tatit e do Joãozinho Gomes.  A Ná (Ozzetti) é uma pessoa que acredita e me dá muito a mão. Um ser humano maravilhoso.

Escute a entrevista completa aqui:

Categories: Carimbó Cultura

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EXCLUSIVO: Patrícia Bastos fala da importância cultural da Amazônia

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