Existe algo mais revolucionário do que viver em harmonia com a natureza? Respeitando seus ciclos, sua força, suas riquezas e fragilidades? Existe luta maior do que a defesa intransigente de nossas matas e rios? 

POR ANDRÉ PEREIRA

Ao longo das últimas décadas, o avanço do “desenvolvimento”, calcado no capitalismo, devastou o planeta. Florestas foram desmatadas e rios poluídos em nome do lucro. Povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas foram subjugados em nome do progresso.

E quantas lutas temos que travar para tentarmos reverter estas feridas abertas, que ficam a sangrar indefinidamente? Sangram quando avança a soja, devastando as matas e deixando solos inférteis. Sangram quando poluem os rios, lagos e igarapés. Sangram indefinidamente. E só a luta pode estancar esta sangria.

E se esta luta contra este sistema predatório – baseado em um modelo econômico que prega o individualismo, a competição e o lucro – é indispensável para todos que acreditam em um outro mundo, urge a batalha pela defesa de espaços, comunidades e modos de vida em que esta modelo ainda não se estabeleceu totalmente.

Defender a natureza é lutar contra o capitalismo.

O modelo de vida social e econômico da Amazônia é incompatível com o sistema capitalista – não existe capitalismo sustentável.

É incompatível porque na natureza não há lucro, não há acumulação, não há desperdício, não há competição e tampouco há espaço para ações individualistas. O modelo de consciência “nós” prevalece sobre o “eu”.

Moro em São Paulo há 19 anos, mas morei no interior paulista na minha infância. Eu jamais havia vivido, no entanto, uma experiência como a que vivi nos oito dias que passei recentemente em Alter do Chão.

Vivendo em harmonia com a natureza – nós somos a natureza, não podemos nos colocar fora dela –, sentindo sua energia, respeitando sua força vital.

O igarapé do Macaco é uma das joias de Alter do Chão

Somos nós que devemos aprender com os povos indígenas, com os quilombolas e com as comunidades ribeirinhas, e não o contrário. Temos que levar seu conhecimento, seu modo de vida para os locais onde o “desenvolvimento” já chegou, e não destruir ainda mais estas culturas, que sobrevivem sob constante ameaça do “progresso”.

Considerada a “praia de rio mais bonita do mundo” pelo jornal britânico “The Guardian”, Alter do Chão é um dos principais pontos de turismo do Brasil, que tem feito a cabeça de pessoas espalhadas pelos mais distantes rincões do país (e do mundo). Mas quantos realmente conhecem Alter do Chão?

Conhecer um lugar é conhecer sua gente, seus anseios, suas tradições, e não somente admirar as belezas naturais. Uma coisa é fazer turismo em praias brasileiras, outra coisa é conhecer o Brasil profundo que pulsa em cada vilarejo, cada comunidade que se espalha pelo território nacional.

O entardecer no Tapajós é mais uma das belezas de Alter do Chão

Cheguei em Alter para viver a vida dos moradores locais por alguns dias e logo senti que havia um sentimento de resistência ante os ataques do capital: propostas de lei e a revisão do Plano Diretor de Santarém poderiam resultar na total desconfiguração da vila.

As plantações de soja já cercam a cidade de Santarém. E a construção do porto da Cargill, no local onde antes se localizava a praia de Vera Paz, acabou por destruir um sítio arqueológico que continha registros de mais de 10 mil anos.

Uma partida de futebol feminino no Luso Brasil

A sanha dos ruralistas, no entanto, vai além e dentre as propostas de representantes da indústria da soja para o Plano Diretor Municipal estava a construção de mais um porto, no lago de Maicá, onde habitam comunidades tradicionais – a proposta de construção do porto choca-se ainda com a proposta do estabelecimento de uma APA (Área de Proteção Ambiental) na região, prevista no Plano Diretor de 2006, mas que ainda não saiu do papel.

Outras ameaças iminentes a Alter do Chão estão na ponta da caneta dos parlamentares santerenos: tramita na Câmara Municipal de Santarém um Projeto de Lei, de autoria do presidente da Casa, o vereador Antônio Rocha (PMDB), que permite a construção de prédios de até 19 metros de altura, além de possibilitar a atividade extrativa e mineral na ZEPA (Zona de Preservação Ambiental).

Vivendo na floresta, acordei com o sol e fui dormir com a lua

A municipalização das praias, que até então pertencem exclusivamente à União, liberada em uma canetada pelo presidente da República, é outra ameaça que paira no horizonte: de fato, fica muito mais fácil conseguir a liberação da construção de um resort corrompendo uma prefeitura do que lidando com a burocracia da União.

Cabe lembrar que esta região abriga o maior aquífero do mundo, o de Alter do Chão, com um volume de 86 mil km³, quase o dobro do Aquífero Guarani, que tem capacidade para 45 mil km³. Defender este patrimônio natural, logo, é dever de todos, não apenas dos povos amazônidas.

Diante deste cenário, os moradores de Alter do Chão se mobilizaram e compareceram em peso nos dois dias em que houve a revisão do Plano Diretor Municipal, que deverá nortear as políticas públicas da cidade pelos próximos dez anos.

Estando neste local, neste momento de luta, não pude me omitir.

Movimento social das comunidades tradicionais de Santarém contra o avanço do agronegócio, mineração e construção civil nas áreas de proteção – Foto de Daniel Govino

Na quinta-feira, dia 23, me dirigi ao colégio no bairro Aeroporto Velho, onde aconteceriam os debates com a sociedade civil que culminariam com a elaboração do novo Plano Diretor santareno.

Os “guardiões” dos rios e das matas comparecerem em peso, em maior número do que os ruralistas, que pretendiam incluir no PDM a construção do porto em Maicá.

Logo no início dos trabalhos, uma cerimônia conduzida pelos povos indígenas presentes já demonstrou a força popular da resistência, que deixou os ruralistas acuados. A cerimônia dos sojeiros foi a reza de um Pai Nosso, como se Deus pudesse consentir com a destruição da natureza.

Após dois dias de intensos debates, Santarém ganhou um Plano Diretor inclusivo, articulado por moradores de Alter do Chão e de outras regiões de Santarém.

Os ruralistas pouco se interessaram pelas propostas que foram votadas no segundo dia: não votavam pela aprovação, nem pela rejeição e tampouco se abstinham – apenas esperavam pela votação da proposta que criaria ou não um porto em Maicá. E quando chegou este grande momento, sofreram uma derrota acachapante.

Nestes dois dias de luta, então, vi tantas coisas lindas, que vão muito além das belezas naturais de Alter do Chão. Coisas que turistas normalmente não veem, já que na maioria das vezes se fecham em “bolhas” e trocam poucas palavras com os nativos, ignorando a realidade local.

Vi a força da mobilização popular vencer a ganância e o desprezo pela natureza. Vi um povo unido vencer os ruralistas, um setor poderoso, que tem alta influência em Brasília e nos parlamentos locais – uma vitória provisória, mas significativa.

Em tempos de avanço da intolerância e de fascismo social, tal experiência é um sopro de esperança que esquenta o coração de todos aqueles que almejam uma sociedade mais justa e solidária.

Vale a pena lutar.

Surara! 

Please follow and like us:
Categories: Certas palavras

2 Comments

Dias de luta em Alter do Chão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *