Por José Roberto Aguilar

O  Jackson é um cara batuta mesmo. Ao chegar de São Paulo, ele nos propôs, a mim, a Fernanda, minha companheira, e a Carlos, um amigo do Rio, uma ida a comunidade de Tauarí. Comunidade de sua nova e linda namorada, a Patrícia. Talvez ele fosse pedir a benção desta união a seus parentes, sei lá eu. Mas tinha um problema para mim: PARTIRÍAMOS ÀS CINCO HORAS DA MANHÃ! Eu sou um vagabundo urbanóide que só acorda as dez, pensei em desistir, mas por vias das dúvidas, consultei o I Ching, o livro dos Oráculos, se tal viagem seria propícia. Joguei as moedas e deu o seguinte hexagrama: 50, O Cálice Cerimonial. Suprema boa sorte. Sucesso. Quem sou eu para duvidar do I Ching? Saímos as cinco e trinta da manhã pela estrada da Flona, a Floresta Nacional do Tapajós,nós e nossas redes.

Chegamos, armamos as redes e almoçamos uma deliciosa galinha caipira com farofa e tucupi. Comunidade hospitaleira e amiga. Em seguida, tomamos uma bajara (canoa com um pequeno motor na popa) e navegando pelo rio Tapajós que na região forma uma espécie de lago de uma beleza impar. Paramos em uma das margens e enquanto Jackson realizava um ritual de cura em Carlos andei sozinho pela praia.    

PRIMEIRA EPIFÂNIA  

Esta parte da praia se chama Bexiga. De repente, me encontro num lugar de enorme força. Troncos entrelaçados formando um anfiteatro, árvores de raízes aparentes numa dança de extrema sensibilidade e árvores caídas no rio num contraponto mágico, raízes nas areias se desintegrando complementando o conjunto. Todo isto criando uma sinfonia de sincronicidades que me conduzia além do meu próprio corpo. Neste momento você se conjuga com o universo, varrendo todas as subjetividades e se tornando UM com a natureza, forte, imbatível e natural.

Fico pensando: será que a arte tem o potencial quântico de mudar as células do corpo? Ao ouvir um carimbó de Chico Malta ou uma sinfonia de Villa Lobos, um solo de violão de Sebastião Tapajós, ou uma pintura de Picasso, você se recicla? Sem dúvida, aquilo que eu vi no Bixiga, rio Tapajós, comunidade de Tauarí foi uma bienal de arte dos deuses, talvez da Cobra Grande. 

SEGUNDA EPIFÂNIA   

Voltei e depois de 2 tijelas de açaí, descansei debaixo de uma seringueira. Peguei uma folha e fiquei deslumbrado com os pequenos desenhos dentro do verde e do dourado da folha sugerindo rostos, borboletas, o sol e sua aura e inúmeras sugestões a mais. Cada folha era diferente. Recolhi quantidade de folhas e as coloquei na minha frente. Estranho, pensei comigo mesmo. Parece um alfabeto, uma escrita. Se eu pudesse ler este alfabeto. De repente aconteceu um clarão e EU ESTAVA LENDO AS FOLHAS DA SERINGUEIRA. 

Li durante horas e nunca mais fui o mesmo. De repente as letras voltaram a ficar desenhos nas folhas da seringueira e a leitura sumiu. Talvez, o que eu consegui ler fosse o que as guardiães da floresta quisessem que eu soubesse. E transmitisse.

Despedidas efusivas e dirigimos para a comunidade de Bragança. População: 15 famílias. Nas comunidades todos se conhecem e sabem sua genealogia e a dos outros por gerações. Todos se ajudam. Conheci o cacique Domingos. Bragança é uma comunidade indígena da etnia munduruku. Acontece na Amazônia um grande movimento de volta as raízes primeiras. Cinquenta anos atrás era uma vergonha se declarar índio. Hoje é um orgulho. Incontáveis saberes e conhecimentos foram resgatados. Esta volta as origens indígenas é um dos movimentos mais importante na cultura brasileira. Seu Domingos nos concedeu um enorme privilégio. O de pernoitar na oca sagrada, o local dos rituais, com a licença dos deuses da floresta. A arquitetura desta oca é única. Uma espécie de afunilamento no centro ao alto permite que a fumaça da fogueira central saia livre para o céu. Jackson nos conta que ele é um sacaca, palavra indígena que significa xamã. Além de sacaca ele é um grande escultor. Comprei duas esculturas de jacaré, ou a’ba, que em nhengatú é jacaré.

No dia seguinte rumamos para a comunidade de Piquiatuba. Viajar com Jackson é a maior moleza. Ele conhece todo mundo e é um grande tradutor da cultura local. Conhecemos Dona Teca, liderança forte, uma senhora entre seus cinquenta e sessenta anos e toma conta da pousada turística. Comunicativa, ela nos conta como caçou um veado estando grávida de oito meses. Com a ajuda de seu cão ela encurrala o veado num lamaçal. Entre mordidas do cachorro e cortes com a pequena faca, ela consegue enfraquecer o veado e afogá-lo na lama. Suas palavras transmitem a volúpia de matar a prêsa pelos olhos do predador. A carne é distribuída na comunidade. Vai ser uma semana farta. Não é carne congelada de super-mercado.

Voltamos no mesmo dia e chegamos a Alter do Chão no meio da noite. UMA VIAGEM INESQUECÍVEL DE 3 DIAS.       

            

RELATO DAS FOLHAS DA SERINGUEIRA

O ser humano branco é o animal mais burro porque ele pensa que é o mais inteligente. Não entende nada de floresta e não pede ajuda ao indío que é 100 vezes mais adiante…. a floresta que mantem o mundo em harmonia, quebrada a harmonia, o céu pode cair na terra…houve um momento que isto ia acontecer porque eles queriam nos aprisionar, nós, as seringueiras, as guardiães da floresta…a revolução industrial deixou os brancos loucos, eles criaram gaiolas para si mesmos e fugiram da natureza… gaiolas que andam, gaiolas que voam,gaiolas de morar…a alma do branco ficou pequena… e eles precisavam de borracha para as gaiolas que andam…nosso sangue…fizemos o que tínhamos de fazer para o céu não cair…sopramos no ouvido do inglês Henry Wickham, aventureiro sem eira nem beira para roubar nossas sementes e leva-las para plantar em outro lugar…deu certo…tempos depois, os brancos precisavam de mais borracha para as coisas que andam…o chefe deles chamado Ford inventou uma cidade para nos plantar …esta foi muito fácil…inventamos a praga…depois Belterra…também fácil…praga…salvamos a floresta da escravidão e assassinato do homem pelo homem…cobiça… enquanto uns brancos mandavam lavar cuecas em Paris, outros eram escravizados e mortos para produzir mais borracha…a floresta foi salva…o céu não vai mais cair…agora outro perigo…maior…a soja…se não agirmos AGORA, O CÉU CAI…

COMO FUNCIONA A LEITURA

A folha não é um papel, se bem que o papel vem da folha. A folha de papel contem apenas uma memória de 0,00033 por cento do que uma folha de seringueira. E é efemêra. A folha da seringueira contem uma super memória porque assim que ela é escrita ou estampada, ela se incorpora á biblioteca ancestral das águas. Nunca se perde.A água é o maior computador já existente no universo, ele é memória em sí. A água salgada dos oceanos é o nascedouro da vida e a água doce dos rios é o registro e história dela, a vida. Nada se perde. Tudo muda mas o registro da mudança permanece, sem memória a vida não funciona. E o grande motor básico da preservação destas lembranças, desta imensurável biblioteca é aqui e se chama Aquífero de Alter do Chão. Esta biblioteca não contem apenas a história do homo sapiens, mas de todas as outras espécies e outras civilizações como a de Atlantis que era mais sofisticada tecnologicamente que a do homo sapiens.

A leitura não se faz apenas pelos olhos e pela mente. Não é um processo acumulativo de saber. A leitura não é olhar. Você não vê o que quer, mas vê o que acontece. E acontecimento é transformação celular, o corpo se reconstrói com o acontecimento como uma dança de movimentos novos. Não existe mais quem está lendo, mas aquele que está participando. E a compreensão se faz pele.

Sim, existem bibliotecários e consultantes desta biblioteca. Eles se chamam botos.

 

Informações básicas:

Alter do Chão pertence ao município da cidade de Santarém e fica a 37 quilometros desta cidade, a maior do centro oeste do Pará. Possui 7000 habitantes enquanto Santarém possuí 300.000. Sua distância da capital Belém é de 800 quilometros.

FLONA Floresta Nacional do Tapajós é uma das unidades de conservação criada pelo governo brasileiro. Seu objetivo é o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica.

Participantes desta aventura: Jackson Rego, professor da UFOPA, Universidade Federal do Oeste do Pará e ativista cultural, santarenho. Eu, José Roberto Aguilar, artista plástico e de outras artes, de São Paulo. Fernanda Sarmento, designer e doutora, de São Paulo. Carlos Fernando, do Rio de Janeiro, economista ,e Patricia Viviane, terapeuta, natural de Tauarí.

                         

                                                      

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Categories: Certas palavras

One comment

Uma viagem inesquecível

  1. Legal
    Devemos sempre crer nas epifânias!
    O olho do cosmos nos vê.
    E seus ouvidos escutam o pulso de nossos corações e sentem o calor da nossa epiderme.
    Oxalá querido amigo Aguilar!

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