Relato sobre a II Mostra de Arte indígena do Tapajós na vila de Alter do Chão 

Por Palestina Israel


A MUTAK (Mukameesawa Tapajowara Kitiwara – Mostra de Arte indígena do Tapajós) nome dada a Mostra pela língua nativa “Nheengatu”(língua geral amazônica), o evento nesta segunda edição foi realizado na semana dos povos indígenas dando início no dia 19 e encerrando no dia 22 de abril de 2018.

 

Através do anseio de alguns Borari na vila de Alter do Chão – Santarém, a Mostra foi sonhada no começo de 2016 e teve sua primeira edição em Novembro do mesmo ano. Havendo a união de Indígenas, nativos e moradores da vila, tudo começou numa simples conversa na praça de Alter e se apresentou novamente no ano de 2018 como um grande evento reunindo os 13 povos originários do Baixo Tapajós.

A Mostra tem o intuito de apresentar artistas indígenas divulgando as artes no campo das indumentárias, alimentação, danças, rituais, músicas populares,  a escolha da Cunhã e do Guerreiro MUTAK , valorizando ainda mais a beleza, a corporalidade e as indumentárias tradicionais que os povos da região costumam usar.

O evento esse ano recebeu em torno de 5 mil pessoas durante os 4 dias. Tudo isso foi possível através de vários Puxirum, já que esse evento não teve patrocínio ou leis de incentivos culturais.

O Puxirum é o nome comum utilizado na região para atividades de mutirões que ocorrem quando há necessidade de um trabalho coletivo, seja em festas comunitárias ou força tarefas para executar algum trabalho que necessite de impulso coletivo.

 

A MUTAK nasce com esse ímpeto colaborativo agregando indígenas e não indígenas tendo cada um seu papel fundamental para os vários tipos de funções. Nesse ano tivemos várias frentes, alguns puderam ajudar na busca da palha para ornamentar e construir as barracas tradicionalmente feitas nas festividades comunitárias de Alter.

Outros ajudaram na cozinha, alimentando um batalhão de gente durante os dias.

A comunicação contou com voluntários de jornalismo, editores, artistas e alunos da UFOPA. Alguns “parentes” (nome dado quando um indígena reconhece outro indígena, seja lá da mesma ou de outras etnias), vieram do outro lado do Rio Tapajós, chegando uns dias antes para ajudar a montar e organizar o evento, tendo assim a contribuição amorosa dos povos de outras comunidades.

A Mostra possibilitou catalisar intercâmbio de saberes, alimentação nativa, de danças e de culturas que são diversas em cada aldeia. Tendo a presença dos povos: Apiaka, Arapiun, Arara Vermelha, Borari, Jaraki, Kara-Preta, Kumaruara, Maytapú, Mundurukú, Tapajó, Tapuia, Tupaiú e Tupinambá. Esses 13 povos da região do médio e baixo Tapajós que fizeram uma grande festa trazendo seus rituais, apresentando todas as suas diversidades na praça do CAT em Alter do Chão.

Além das apresentações culturais, a Mostra contou com vivencias e trocas de saberes nessa segunda edição, realizando oficinas  de Sabão medicinal, ministrada pela bio cosmética Gilvana Borari. Segundo Gilvana Borari, a MUTAK deu oportunidade dela repassar seus conhecimentos herdadas de sua Mãe que à anos trabalha com plantas medicinais do bioma amazônico.

Houve também vivências de Carimbó  com os Mestres Hermes Caldeira e  Claudio Matias. Trazendo dinâmicas divertidas para os participantes e para a  caravana de alunos do ensino médio que vieram da cidade de Belterra, promovendo aprendizado sobre a cultura cabocla do Carimbó.

Thaline Carajás transmitiu seus saberes sobre maquiagem natural, oferecendo várias dicas de beleza, materiais oriundos da floresta para se fazer uma bela maquiagem indígena.

Gaspar e Anne, dois franceses que passaram por Alter após o FAMA (Fórum Alternativo Mundial da Água) deram uma atividade de como preservar e analisar a qualidade da água. Eles ofereceram pequenas placas sensíveis que revelam como está a qualidade e o Ph da água na região.

Maria Puxadora da etnia Tapajó abordou as plantas, realizando uma oficina de banhos de ervas, massagem e puxação para tirar “espinhela caída” e “quebranto”.

E tudo isso teve a cobertura da Oficina de Audiovisual que agregou a comunicação da MUTAK junto com o coordenador Palestina Israel culminando numa palestra do Cineasta Locca Farias, que abordou a importância do audiovisual como ferramenta de empoderamento, oferecendo reflexão e o valor de documentar movimentos culturais e políticos.

A oficina de audiovisual abordou a comunicação no âmbito transversal enquanto mídia integrada, concebendo roteiro, produção, edição e publicação na web. Sendo assim, uma oportunidade de divulgar a Mostra, utilizando o próprio evento para aprender sobre comunicação e mídias digitais. As oficinas foram cruciais para a MUTAK como forma de fomentar os saberes locais, divulgação e proporcionar intercâmbios de especialistas de outras regiões que se alinham na causa indígena. 

A MUTAK proporcionou em um só evento a capacidade de conectar e estimular a economia dos comunitários e indígenas da região, oferecendo oportunidade do turismo cultural em plena baixa temporada amazônica.

Além da impulsão econômica, a MUTAK tem o intuito de valorizar e trazer a auto estima indígena, revelando a beleza, a tradição, os saberes encentrais dos pajés, demonstrados nos rituais que ocorreram todas as noites durante a Mostra.

A fundamental participação do Paulo Borari e Maria Tapajó, indígenas com  forte conexão espiritual, estimularam os rituais com os demais “parentes” reverenciando os encantados  com muita alegria, celebração e com as canções do Macucauá, manifestação comum na região que celebra a prosperidade, a união dos povos através de cantos, danças, banhos de cheiro conjugadas com uma bebida fermentada da mandioca, o Tarubá.

Dentro dessas atividades todas, a comunicação ficou encarregada de divulgar e ao mesmo tempo oferecer uma pedagogia através das oficinas em que oficineiros e voluntários tiveram a experiência de aprender e fazer na prática a cobertura do próprio evento com vídeos, “streming” ao vivo e registro fotográfico. Tudo sendo postado em tempo real através das redes virtuais e contatos com outras mídias locais. 

Durante as noites culturais, a Mostra teve a participação do Movimento de Carimbó do Oeste do Pará com as bandas e mestre da região, nos quais entraram em cena os Mestres Chico Malta, Paulo Barreto, Hermes Caldeira, Claudio Matias e Osmarino.

Havendo posteriormente o palco aberto para os demais artistas musicais que deram ao evento um caráter comunitário e democrático com a participação especial de Maria Lídia, Thaline Carajás e a apresentação do novo grupo de mulheres carimbozeiras Suraras do Tapajós. 

Foram 4 dias de folia com muitas apresentações em larga escala desde as pinturas étnicas dos povos e a presença de estudantes de medicina da UNAMA que fizeram consultas solidárias para diagnosticar pressão alta, diabetes e entre outros sintomas possíveis através de exames de sangue.

A comissão da MUTAK agradece a colaboração de todos que se envolveram voluntariosamente nesse grande Puxirum que deu vida, cores e harmonia.

O evento almeja continuar suas edições nos próximos anos contanto com a presença de indígenas e não indígenas aliados ao poder público que teve presença confirmada neste ano com ajudas de infra estrutura e divulgação.

Na MUTAK a importância da colaboração é a essência na qual sem o envolvimento, o amor e a vontade de colocar nossos direitos em praça pública, não seria possível manifestar a existência, o direito à cultural, educação e desenvolvimento de economia num trabalho autônomo e empoderado de criar novos meios de expressão e comunhão. 

Surara, Surara, Surara é o que promovemos para provar a força de guerreiras e guerreiros que nessa terra existem a milhares de anos !


Haux

 

 

  

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