Por Susan Gerber

Outro dia uma moça muito interessante de fora, de bem longe, me mostrou aqui em Alter do Chão a sua mais nova tatuagem indígena, uma tartaruga estilizada feita de jenipapo. A tartaruga falava: vai devagar e persista sempre.

Quando eu vim morar em Alter do Chão aprendi logo uma lição chocante. Iniciadas as chuvas, muito bem vindas, as águas simplesmente inundavam a minha casa. Era goteira, cachoeira, rio, dilúvio no meio da minha sala. Pingava no sofá, inundava a cama, não tinha baldes, bacias e outros recipientes suficientes para, no mínimo, limitar o estrago. Foi quando chegou meu empregado. Eu na beira de uma crise nervosa e ele comentando assim: Dona Susan, é assim mesmo!

Uma semana depois sentado no meio da mesma sala no sofá se avistava o céu. Entre várias pancadas, controladas por um plástico gigante, o telhado foi refeito por uma brigada de carpinteiros e ajudantes e, além disso, reforçado com uma manta. A partir daí as invasões da chuva se restringiam a parede ao lado da porta. Podiam, dessa maneira, ser domadas com um balde gigante. E eu podia dormir no seco.

Levando a vida no “É assim mesmo” – para aqueles mais favorecidos pela vida e o berço, a citação da geografa Berta Becker ilustra a situação com precisão. Ela fala que a população nativa da Amazônia está se enxergando como cidadãos há muito pouco tempo, somente com o fim da ditatura,. E Márcio Souza, escritor e historiador, vai mais longe. Ele diagnostica um tipo de vingança travada pelas camadas nativas em subverter e escafeder-se de certas normas impostos por intrusos iguais a mim.

Mas vamos ao que interessa. Se a vila de Alter do Chão, o idílico balneário tão festejado lá fora, fosse minha casa, seria uma casa na qual entra chuva e alguém passando diz: é assim mesmo. Relevaria o lixo, as queimadas. Hoje mesmo fui duramente reprimida ao catar lixo em frente de uma certa casa e colocar na lixeira da mesma. Aprendi agora que lixeira também é propriedade particular. O cara que me reprimiu, jogou o lixo de volta na rua! E isso porque nem estou exigindo uma coisa tão exótica como coleta seletiva do lixo, reciclagem.

Releve o som alto o qual te obriga a participar involuntariamente de festas que você nem foi convidada. Que o seu sossego e o seu sono se danem. É assim mesmo.

Ignore as ruas esburacadas.

Releve o micro-sistema que fornece a água que é de todos e é de fato de ninguém. Todos usam, ninguém paga. Uns até enchem e esvaziam regularmente as piscinas no lugar de tratar a água.

Leve ainda de brinde a criminalidade na rua, bem na nossa cara. Assaltaram a mão armada meu vizinho em uma ação planejada por pessoas que sabiam quem era, como e porque assaltá-lo. Tiveram que cobrir o rosto com capuz para não ser reconhecidos. É assim mesmo.

O “É assim mesmo” reverbera em outras conversas. Nas mesmas se discute a real realidade daqui. Alter é um lugar todo especial, tem o status de uma APA, uma área de proteção ambiental. Como pode acontecer que a maioria das casas aqui não são legalizadas, registradas em cartório? Como é possível que todo mundo confie em um papel de compra e venda? Encontrei-me recentemente com uma pessoa, que comprou o já conhecido “segundo andar” de um terreno. Quando ela quis legalizar o terreno já tinha outro dono. Foi invadido e vendido por terceiro. “É assim mesmo”.

O médico, querido por todos, com um trabalho extraordinário, denunciou a miserável qualidade da água do rio, casos de hepatite, que aumentam todo ano, junto com as subidas das águas. Aqui na nossa frente, nas praias mais belas do Brasil. Pessoas e autoridades da Vila não o apoiaram, diziam que assim afastava os turistas, que trazem dinheiro pra vila. “É assim mesmo”.

E depois me falam ainda que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Está tudo entrelaçado.

Em outras conversas de repente as estatísticas ganham corpo e rosto. Completam com sangue e horror. Histórias tortas e confusas. Eu as conhecia no máximo de novelas. Aqui em Alter do Chão estão acontecendo debaixo do meu nariz. São vividos, críveis e crus. Abrem-se abismos.

Uma conhecida, recém voltada de uma viagem, encontra a sua casa completamente esvaziada. O marido, de quem ela está se divorciando, lhe tomou tudo, nem o assento do vaso sanitário sobrou.

Outro dia perguntei a uma senhora: “Quantos netos a senhora tem, junto com o recém-nascido?” –. “Um da minha filha e três de meu filho. Três netos, cada um com uma mulher diferente … ». É assim mesmo, e chamam as crianças carinhosamente de filhos do boto. Para muitas jovens aqui a chegada de um bebê parece a única possibilidade fugir de uma casa disfuncional. Edificar um futuro próprio. Ou escapar de uma casa parental na qual o mais recente padrasto dita as regras.

Repetem em espirais intermináveis os mesmos erros cometidos há gerações. Muitos filhos de boto são educados por tias, avós igualmente despreparados, cheio de carinho e de boa vontade. Um neto até pode ser uma forma de compensação. Compensa a dor da perda de um filho que tirou a própria vida ou morreu em acidente ou coisa pior.

Ser jovem aqui em Alter do Chão deve ser muito, muito difícil. Vi muitos filhos desses mais favorecidos se mudando para o Sul. Parece que o tempo parou por aqui. Será que é o “é assim mesmo”? Tentando entender um pouco melhor a situação, esbarro sempre nos mesmos problemas e fragilidades: Ausência do poder público, incoerências gritantes entre plano diretor, APA e Alter de fato. É isso que leva a “é assim mesmo”?

Admiro o povo daqui. O seu humor impagável e seu jeitinho de ganhar a vida contra todas as adversidades. Cada esquina tem sua igreja particular com seus fiéis pagando religiosamente o dízimo exigido. Em bom português: “se vira.” Quer uma faxineira ou alguém cortando a grama? Um frango caipira ou um peixe grelhado? Você também pode alugar uma casa ou um misturador de concreto. Vende-se pedras ou picolé, corta-se cabelo. Não há muitas outras maneiras de pagar as contas no final do mês. Nem todos podem trabalhar na comunidade, já estão em idade de aposentadoria ou recebem apoio do governo como Bolsa Família. Sei que o estado ou a administração pública é um dos empregadores mais importantes em muitos estados da Amazônia, com salários muito acima da média, especialmente na área de justiça. Detalhe picante – funcionários do governo trabalham aqui apenas das 7h00 às 13h00. Aqueles que não conseguem se beneficiar dessas benesses são duplamente punidos. Aqui no norte, a proporção de trabalhadores e empregados que têm todos os direitos e obrigações legais e sejam legalmente registrados, está muito abaixo da já baixa média brasileira. Não chega a 10% da população economicamente ativa em metade dos municípios e não é superior a 50% em nenhum dos municípios.

Viva àqueles que não perdem a paciência ou o humor.

A realidade real nos fala das espirais infinitas, repetidos por gerações e gerações nas quais as pessoas comuns estão presas. Quem além do governo ausente os ajuda conseguir sair da pobreza e da miséria?

Semana passada alguém da vila foi esfaqueado na rua próxima ao hotel do balneário. Pelaram e espancaram outra mulher cuja vida só foi salvo porque uma vizinha corajosa se colocou na frente dela. Não adianta fechar os olhos. Não adianta mais do “é assim mesmo“. Não estamos vendo as coisas pela televisão ou jornal, está acontecendo mesmo aqui, no meu vizinho, no nosso quintal.

E ai que volta a tartaruga. Devagar, mas persistente.

Adoro o povo daqui, extremamente gentil e fácil de conviver. Mas nas suas casas está entrando chuva, muita chuva e ladrão também. O “é assim mesmo”, o relevar, o ficar por fora, o não querer saber, estão com os seus dias contados. Mesmo aqui no fim do mundo. O progresso chegará aqui também. Ajudem! Está em nossas mãos reverter o “é assim mesmo”. Cada um fazendo sua parte e somando as nossas energias e forças.

Vamos discutir os problemas de Alter. Ao procurar o diálogo, temos que considerar o adversário uma voz dissonante e não um inimigo.

Além disso, enxergo com muita clareza: reverter funciona somente em conjunto. É a soma de todos nós que faz a diferença.

Sozinhos não somos ninguém.

Devagar, mas persistente igual a tartaruga.

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