Por Aloyana Lemos

Altamira, onde se encontra a terceira maior hidrelétrica do mundo – Belo Monte – hoje é considerada a cidade mais violenta do Brasil. A taxa é de 105,2 assassinatos por 100 milhabitantes, superando Lauro de Freitas na Bahia, que é a segunda colocada com taxa de 92,5 e o município do Rio de Janeiro cuja taxa é de 22,3 por 100 mil habitantes. No início das obras de Belo Monte em 2011, surgiram duas facções criminosas  que aproveitaram o crescimento da população, principalmente masculina, para vender drogas ilícitas. Após a hidrelétrica já inaugurada, muitas pessoas que trabalhavam nos canteiros de obra ficaram desempregadas. Tantas foram embora da cidade. Outras ficaram. Com a falta de trabalho, houve uma queda nas vendas de drogas e com isso as duas facções começaram uma disputa pelo território.

Málaque Mauad e outra mãe que perdeu seu filho em Altamira

“Há quatro ou cinco anos atrás aquele jovem que estava ganhando dinheiro com isso, foi ficando mais forte dentro dessas facções e acabou ganhando poder no mundo do crime. E ainda aliciando outros. Agora muitos jovens estão morrendo por conta de tudo isso. Além de se tornarem trabalhadores do tráfico, eles acabaram virando dependentes químicos também, acabaram se viciando”, afirma Málaque Mauad, mãe órfã de filho vítima de violência em Altamira.

Segundo estatísticas da Polícia Civil, só em 2017 morreram 89 jovens em Altamira, em sua maioria negros, sem contar os que foram mortos e a polícia não descobriu como. Málaque conta que o filho de 22 anos, estudante de Geografia na Universidade Federal do Estado do Pará, foi assassinado por engano no dia 2 de outubro de 2017, no reassentamento coletivo São Joaquim. Ele acompanhava um amigo até sua casa, ao chegar no local, estavam 4 homens que acreditavam estar no território do inimigo e atiraram para cima dele e seus amigos.

“Meu filho pegou 3 tiros e faleceu no local, o amigo dele pegou 16 tiros e o outro rapaz que estava junto foi assassinado no banheiro. Somente um conseguiu escapar.”

Estudante de geografia assassinado em outubro do ano passado por engano.

Só entre 20 a 26 de julho foram 4 homicídios que se tem notícias. Segundo Málaque, o prefeito nunca se pronunciou a respeito da violência. Ela afirmou ainda que não existem políticas públicas atrativas para a juventude na cidade de Altamira.

“Aqui em Altamira tem alta rotatividade de promotores. Quando os promotores começam a conhecer e acompanhar os casos e os movimentos sociais, eles acabam sendo transferidos para outros locais”, afirma Málaque.

Nagida Gomes é outra mãe que perdeu o filho vítima de violência. Ela afirma que as investigações perante os assassinatos andam muito devagar devido a alta rotatividade de promotores e também de juízes na cidade.

Há 8 meses, 3 mães de jovens assassinados viram a necessidade de criar O Coletivo de Mães do Xingu.

“O principal objetivo do nosso coletivo não é enxugar lágrimas das mães, mas sim apoiar e dar forças. Além disso, fazer com que a sociedade e autoridades pensem em políticas voltadas para nossos jovens, deem oportunidades a eles, para que o mundo do crime não interfira na vida deles”, conta Nagida.

Hoje, 14 mães participam do coletivo, se apoiando, lutando por justiça e por uma Altamira melhor para todos.

“Amigos, familiares e movimentos sociais, começamos a discutir o que poderíamos fazer. Acima de qualquer diferença, a minha dor é a dor da Nágida, da Maria, da Vilma… independente de que lado eles (os filhos) estavam, isso não importa, a juventude não tem que morrer”, acrescenta Málaque.

O Coletivo já recorreu ao Ministério Público do Estado do Pará para elucidação dos crimes, assim como a vários promotores de justiça e delegado civil.

“A gente sabe que corre risco de vida quando procura por justiça, mas eu pedi para os meus familiares que não me pedissem pra parar, porque se eu não estivesse nessa luta eu acho que já estaria totalmente deprimida ou até já ter atentado contra minha própria vida. Eu sei que essa luta não vai trazer nossos filhos de volta, mas com certeza vai encorajar outras mães a seguirem em frente”, desabafa Málaque.

As autoridades afirmam que estão fazendo o possível diante do limitado quadro de delegados, investigadores e escrivães desproporcional às várias ocorrências registradas nos últimos tempos.

Categories: Denúncia Mulher

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