No final do ano passado, o bairro do Carauari estava sofrendo uma onda de furtos e assaltos. A polícia demorava cerca de 40 minutos para chegar a qualquer casa do bairro e um dos fatores da demora era a condição precária das ruas, algumas impossíveis de trafegar.

Por medida de segurança, os moradores da vizinhança começaram a se organizar em grupos de socorro no Whatsapp. A ideia era encontrar caminhos para alertar sobre movimentos estranhos e ajudar qualquer vizinho no momento de assalto: chamar a polícia e prestar socorro. Frente à qualquer ameaça ou roubo,  cada morador poderia rapidamente disparar um alerta na rede de apoio.

Aconteceu uma primeira reunião com 28 pessoas. Se os buracos na rua eram um problema até para a polícia, os moradores se organizaram para fazer um abaixo-assinado. 

“Juntamos as duas coisas: ruas intransitáveis e incidência de assaltos. O acesso ao bairro dificultava a polícia e ajudava os ladrões“, conta o engenheiro civil Ivan Moreira.

Coletaram 98 assinaturas e o documento foi levado ao Ministério Público e, em seguida, à Secretaria de Infraestrutura da Prefeitura. O pedido era simples: que as ruas fossem recuperadas minimamente, para garantir segurança aos moradores e também acesso às suas casas.

A pressão veio pelo Ministério Público e a Secretaria de Infraestrutura respondeu prontamente. Em menos de uma semana, os caminhões da prefeitura chegaram para arrumar os buracos da rua.

Maquina chegando para fazer o serviço – Foto de Susan Gerber

“Eles vieram tão rápido que nós até demoramos para acreditar. Em grupo, pressionando as pessoas certas da maneira correta, somos ouvidos”, conta Susan Gerber.

Movimentando grandes montes de terras para tampar buracos na entrada na mesma rua – Foto de Susan Gerber

Foi uma semana de trabalho para resolver a trafegabilidade das ruas do bairro.

“Foi ali que cada um viu que a gente podia mudar as coisas. Com nossa união, em uma semana, conseguimos quatro caminhões e dois tratores da prefeitura para arrumar as ruas”, conta o professor Lauro Barata, morador do bairro.

Animados com a primeira conquista, tiveram a ideia de promover uma ação de limpeza de todo lixo acumulado nas ruas da vizinhança. O coordenador da comissão Ivan Moreira ficou responsável de ir à Administração Distrital de Alter pedir uma caçamba para recolher os sacos com lixo que eles mesmos iriam reunir, no dia do mutirão. Os administradores Pedro Oliveira e Valdir Baía atenderam ao pedido prontamente.

A ação começou logo cedo e pelo menos 20 moradores estavam no encontro para recolher resíduos sólidos jogados de maneira irregular pelas ruas.

Foto Susan Gerber

Por falta de lixeiras públicas e também de uma campanha ambiental sobre os problemas de jogar resíduos na rua, todos os bairros da vila têm lixões espalhados pelo caminho.

Foto Susan Gerber

Portas condenadas, redes de pesca, fogões quebrados, vasos, entulho de obra, sacolas plásticas, fraldas usadas… foi possível encontrar de tudo.

Foto Susan Gerber

A prefeitura enviou a caçamba solicitada e mais uma vez os moradores viram que bastava organização e união para resolverem antigos problemas do bairro.

Foto Susan Gerber

Algumas ruas de Alter começar a ser asfaltadas. O grupo escreveu uma carta à Coordenadoria de Infraestrutura do Governo do Estado questionando o porquê de outras ruas menos abandonadas receberam asfalto e as do Carauari, que mostraram a necessidade de recuperação recente por questões de segurança e direito de ir e vir dos moradores, ainda não.

O resultado foi a reunião:

Reunião no Centro Regional de Governo com coordenador de infraestrutura Arquiteto Rodrigo Branco.

Recebidos por Rodrigo Branco, o grupo falou da importância dessas obras, da preocupação com as águas da chuvas que descem com força para o Lago Verde e da necessidade do cuidado com todas as entradas das ruas do bairro.

Registramos os impactos do novo asfalto da estrada Santarém Alter e foi constatado que as cabeças das ruas não foram asfaltadas. Quando chove, ainda continua entrando muita água e areia nas ruas do nosso bairro. Não foram feitas obras nenhumas para retrair a areia. Isso não só prejudica o lago Carauari, mas as ruas do bairro também se tornearão logo, logo intransitáveis de novo.– explica Susan Gerber

Inclusive, vale lembrar, a falta de asfaltamento das ruas de grande circulação é um problema de todos os bairros. Além dos moradores, todos os turistas que preferem chegar na vila por transporte público brasileiro também comem a poeira do trecho importante do percurso do ônibus na chegada e entrada de Alter? A falta de infraestrutura básica em vias de grande circulação da vila, entradas de bairros, devem ser prioritárias.

Feijoada – foto de Susan Gerber

Papo vai, papo vem, e o dia-a-dia é feito situações e muitas repetições. Tem coisa que incomoda muito os moradores. Visitantes também. E é uma coisa muito básica. A falta de lixeiras públicas e de diariamente encontrar lixo espalhado e acumulado em mini-lixões no meio do mato.

 

Feijoada – foto de Susan Gerber

Vamos esperar até quando? Foi assim que o grupo fez uma feijoada para arrecadar fundos para a construção de lixeiras. Comida pronta, moradores reunidos e um fundo para o grupo arrecadado, coletiva e voluntariamente.

Na sequência, mais um evento promovido pelos moradores do Carauari: uma festa para as crianças que alegrou a todos no Clube das Mães.

Márcia em ação em prol das crianças – Foto de @micievip

Durante esse processo todo, perceberam que era importante agir de forma oficial, com a criação de uma nova AMA, a Associação de Moradores e Amigos do Carauari.

Começaram a se reunir pessoalmente para debater a missão geral e os objetivos de uma associação que cuidasse do bairro.

Consultaram diversos estatutos de comunidades de todos os cantos do país. Foram diversas reuniões presenciais para leitura, discussão e adaptação de cada um dos artigos até chegarem ao documento final. Leia aqui o estatuto.

Para registrá-lo em cartório e publicá-lo oficialmente, houve um custo. Mas o grupo já tinha arrecadado um primeiro fundo na feijoada. Usaram este recurso.

No dia 12 de novembro, nasceu oficialmente a nova associação.

A próxima grande ação será a construção e instalação de lixeiras públicas.

Com uma coluna exclusiva no BOTO, a associação de moradores contará no jornal comunitário informações do Carauari, além de ideias e registros da associação.

Que todas os bairros também comecem a divulgar suas causas para todos.

Trocar informações a quem interessar. Sempre há quem se interesse. De verdade.

Aprender também com as informações dos outros.

Que os exemplos possam servir como modelos, quando melhorarem alguma situação repetitiva negativa, ou que possam servir para discussão, quando mostrarem que o caminho pode ser diferente.

Acompanhe e fique por dentro.

 

Categories: Carauari

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