O boto Daniel Gutierrez conta como surgiu a Brigada de Alter do Chão, que combateu 12 incêndios só no último trimestre. A partir dessa primeira apresentação,  a brigada inaugura no jornal da vila uma coluna para contar sobre como podemos ajudar, medidas de prevenção e noticiar as ações da equipe. Fique por dentro e ajude! ❤ 

Por Daniel Gutierrez
Incêndio florestal em Alter

Como surgiu a Brigada de Alter?

Daniel Gutierrez: A Brigada de Alter surgiu depois que tomamos contato com os bombeiros num curso de primeiros socorros que aconteceu no primeiro semestre de 2017. Logo após o curso, um incêndio grande aconteceu depois que alguém botou fogo numa casa na árvore, em cima da Serra do Carauari. A partir daí, o movimento nunca mais parou e só cresceu. A casinha foi completamente destruída e as madeiras que caíram começaram um incêndio de grandes proporções. Nós não tínhamos o treinamento necessário na época. Se fosse hoje, o incêndio nem teria começado. Mas por falta de experiência de quem detectou o incêndio, ele se espalhou, ajudado pelo vento e pela especificidade do solo da serra: terra preta, cheia de oxigênio e matéria orgânica. O incêndio era subterrâneo, muito difícil e pesado para controlar, porque era preciso fazer um acero profundo, que é chamado de trincheira. Fazer isso no meio da floresta e em um terreno íngreme não foi nada fácil. Foram vários dias de combate com a ajuda de dezenas de voluntários que se revezavam sob a liderança dos Bombeiros. Depois de 4 dias de muito trabalho conseguimos acabar com o incêndio.

Ao final, a equipe de voluntários foi louvada pelo Cabo Vieira, Bombeiro Militar, especialista em incêndio florestal que nos comandava. Ele disse: “senhores, vocês tem um bom grupo aqui, por que não formam uma Brigada de Incêndio?” 

A partir do convite do Cabo Vieira vocês montaram uma equipe?

Daniel Gutierrez:  Compramos a ideia dele e a partir daí não paramos mais. Fizemos um grupo de whataspp onde compartilhávamos informações sobre incêndios na região com moradores da vila e os Bombeiros. Aliás, sempre citamos os nossos instrutores Cabo Vieira e Cabo Galucio por nunca terem desistido da gente. Mesmo durante a época de chuva, eles não deixaram a moral do grupo cair e continuaram a nos apoiar e incentivar.

foto de João Romano e Daniel Gutierrez Govino

Vocês tiveram algum preparo para hoje saber como proceder em caso de incêndio?

Daniel Gutierrez: No segundo semestre desse ano, recebemos o convite do Cabo Vieira para participar de um curso de formação de brigadistas em Belterra que o 4º GBM de Santarém ministraria. O curso foi idealizado e bancado pela Secretaria de Meio Ambiente e Turismo de Belterra, através da Secretária Manuela Florenzano, e pela Defesa Civil Estadual, através do Cabo Herbert. Alter do Chão teria 10 vagas no curso, conseguimos emplacar 6 pessoas que se disponibilizaram a ficar 5 dias em Belterra para a formação.

foto de João Romano e Daniel Gutierrez Govino

Foi aí que a coisa ficou mais séria. Gostamos tanto do curso que voltamos de lá com muitas ideias na cabeça e com uma certeza: não teria um fogo que não iríamos combater!

Equipamentos da brigada – foto de João Romano e Daniel Gutierrez Govino

Vocês tinham o equipamento para ajudar no combate de fogo na vila?

Daniel Gutierrez: Com recursos próprios, investimos em EPIs básicos e partimos para os combates. Foram 12 combates em 3 meses de formados, sendo 3 deles bem sérios e grandes. Mais uma vez, os Bombeiros nos ajudaram deixando equipamentos de combate conosco, que hoje estão à disposição da Brigada, sob nossa responsabilidade.

foto de João Romano e Daniel Gutierrez Govino

Quando foi a apresentação oficial da nova brigada para  a comunidade?

Daniel Gutierrez: No dia 30 de outubro desse ano, lançamos a Brigada à comunidade em um evento no salão comunitário com a presença das entidades representativas da Vila, Bombeiros e Secretaria de Meio Ambiente de Belterra. Desde então ganhamos visibilidade e até doações de equipamentos.

Foto de João Romano e Daniel Gutierrez Govino

Qual a principal causa de incêndios em Alter?

Daniel Gutierrez: A vila é cercada de florestas e pela savana. A  maior parte (95%) dos incêndios florestais, segundo dados dos Bombeiros, acontece por causa humana direta. Ou seja, criminoso. Os outros 5% acontecem por raios e outras causas bem mais difíceis de efetivamente iniciar  um incêndio, como garrafas de vidro jogadas no chão ou bitucas de cigarro. Como aprendemos no curso: todo incêndio começa com um fogo que pode ser apagado com os pés. Por isso, é muito importante que, se um incêndio for detectado por qualquer cidadão, ele seja comunicado imediatamente aos Bombeiros através do NIOP (193 ou 190) e à Brigada de Alter para que possamos agir rápido.

Foto de João Romano e Daniel Gutierrez Govino

O que podemos fazer para evitar incêndios na vila?

Daniel Gutierrez: Uma das coisas mais importantes para que todo cidadão evite incêndios: não queime seu lixo ou terreno. É crime queimar um terreno sem autorização da Secretaria de Meio Ambiente do município. Mas se for queimar mesmo assim, controle o fogo. Seja responsável pela área que decidiu queimar porque um pequeno fogo pode se espalhar e provocar sérios problemas.

Em caso de fogo, o que é primeira coisa que devemos fazer?

Daniel Gutierrez:  Caso detecte um incêndio avise a Brigada de Alter imediatamente através dos telefones abaixo ou por qualquer grupo de whatsapp da Vila, estamos em todos. Ligue também no 193 ou 190 para registrar a ocorrência. Esse alarme rápido é de extrema importância para que tenhamos tempo de agir. É responsabilidade de cada um zelar pela nossa Vila e pela nossa Floresta. Estamos a serviço de vocês.

Qual é o passo a passo no combate a um início de incêndio?

Daniel Gutierrez:  A nossa forma de atuação está ganhando cada vez mais em eficiência à medida em que cresce nossa experiência. Nós seguimos o que aprendemos no curso e quando o incêndio acontece nós atuamos da seguinte forma:

Detecção: é quando recebemos a informação sobre o fogo ou quando nós mesmos detectamos um incêndio.

A informação chega a nós através do telefone ou dos grupos de whatsapp da Vila. Depois de recebida a informação, o brigadista que estiver mais próximo vai até o local para fazer a detecção. A partir daí iniciamos o segundo passo. 

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Comunicação: Passamos a situação no nosso grupo da Brigada de Alter, no grupo da Brigada 21 – que juntou as cidades de participaram do curso. Nesses grupos estão alguns moradores, a Brigada de Alter, os Bombeiros e a Polícia Militar. O brigadista de plantão passa a situação real a todos os envolvidos.

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Mobilização: a gente vai até o local, sobe um dos drones da Brigada (drones particulares à disposição da comunidade) para ver de cima o tamanho do fogo e da área afetada. A partir dessa imagem temos um geral de como poderá ser o combate, o que chamamos de Estudo da Situação. A gente recebe orientações dos Bombeiros sobre a melhor forma de atuar. Eles nos perguntam se nós precisamos deles ou se podemos combater sozinhos e juntos definimos a aplicação dos Métodos de Combate. Essa mobilização está sendo apoiada normalmente pela Polícia Militar, que nos busca na sede da Brigada para transportar os brigadistas e os equipamentos. Esse apoio é de extrema valia porque eles tem um carro grande, traçado 4×4, e porque nos dá segurança, pois algumas áreas são de invasão.

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Controle: é o combate em si. Passamos horas ou até dias até que o incêndio seja controlado. Usamos nossos EPIs e os equipamentos emprestados pelos bombeiros: 4 abafadores, 1 mochila costal e 2 mac louds que são como ancinhos especiais para incêndio. Além disso usamos facões, enxadas, foices e uma roçadeira recentemente doada pelas donas da Pousada Vila de Alter. Nós não descansamos até que o fogo seja controlado. 

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Rescaldo, que é o momento de acabar com focos resistentes e outras ameaças de o incêndio voltar a tomar força. Ao final fazemos a desmobilização que quando voltamos pra casa, organizamos e contamos os equipamentos reorganizando tudo para que fiquem de fácil acesso para os próximos combates.

 

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Vigilância e Monitoramento, normalmente no outro dia, voltamos ao local para fazer a para garantir que o fogo foi totalmente extinto.  A inteligência e a comunicação são essenciais. Brigada, Bombeiros e Polícia estão em contato muito próximo para os combates. Além desses atores diretos estamos recebendo bastante apoio da Comunidade e das entidades como o Conselho Comunitário, o Conselho de Segurança, a ATUFA e outros. Essa rede de comunicação só cresce é de extrema importância para a eficácia do nosso trabalho.

Agradecemos a entrevista e esperamos sempre dicas de vocês aqui no Boto.

Daniel Gutierrez:  Estamos muito felizes com essa nova coluna no jornal O Boto, onde poderemos compartilhar nossas experiências no fogo, nossos planos para o presente e para o futuro da Brigada. Contem conosco! Contamos com vocês!

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