Preso entre março e junho deste ano, Padre Amaro foi detido injustamente por ser solidário e defensor dos direitos humanos, encorajando o povo a ir ao Ministério Público, na Defensoria Pública e em outros órgãos denunciar constantes ameaças de madeireiros e, também, os 16 assassinatos de trabalhadores rurais. Como padre da Paróquia de Santa Luzia de Anapu, da Prelazia do Xingu, situada no estado do Pará, e coordenador da Comissão Pastoral da Terra, há 20 anos Amaro é importante defensor dos assentamentos de sem-terras na cidade. Sua atuação ficou ainda mais forte após o assassinato da Irmã Dorothy, em 2005, o que lhe deu forças para continuar o trabalho da missionária. O presidente do Sindicato Rural, madeireiro e político Silvério Fernandes acusou e difamou o religioso e, mesmo sem provas, inventou histórias grotescas com o intuito de afastá-lo da cidade. Tudo foi desmentido. Em entrevista exclusiva ao Repórter Brasil, o padre conta sobre as maldades da família de Fernandes (seu acusador), que está pessoalmente ligada à morte da irmã Dorothy.

Por Daniel Camargos, para Repórter Brasil
De Altamira, Pará
Os fiéis da Renovação Carismática lideram a ofensiva para retirar a pintura do altar da igreja, que tem a imagem da irmã Dorothy e do padre Josimo ladeando uma representação de Jesus como trabalhador rural

O senhor teme ser assassinado, como aconteceu com a Dorothy?

Padre Amaro: Eu desconfio que eles armaram para me matar dentro da cadeia. Fiquei 92 dias preso. Quando eu cheguei lá o Taradão estava lá dentro. Foi ele que me deu Feliz Páscoa primeiro. Eu não disse nada e nem estendi a mão. Ele disse: “Você é inocente. Eu sou inocente. Foi uma coisa que armaram para nós”. Nas quatro vezes que a gente se cruzou ele falou isso para mim. Quando saiu o habeas corpus dele ele disse: “Padre, clareou para mim e vai clarear para você também”. Quando ele saiu passou na frente da minha cela e se despediu. Naquele período que eu estava ali houve rebelião em Belém, Itaituba, Marabá e não houve aqui, em Altamira. Só teve depois que eu saí. Eu desconfio que eles me matariam durante a rebelião.

O padre Amaro é o grande articulador das invasões que aconteciam em Anapu”, acusa Silvério sobre o sucessor de Dorothy Stang
As missionárias Jane (de camisa branca) e Katy não se intimidam com as perseguições ao padre e à Comissão Pastoral da Terra. A meta delas agora é a mobilização para regularizar o assentamento na Mata Preta

Além da denúncia de liderar as invasões, o senhor também foi acusado pela polícia civil de assédio sexual. Foi uma tentativa de assassinato moral?

Padre Amaro: Eu, com 51 anos, se quisesse fazer alguma coisa não ia fazer isso filmando. Foi difícil, mas quem me conhece, como os próprios bispos, entenderam e disseram que não queriam ouvir falar nisso. A promotora, inclusive, tirou isso da acusação feita pelo delegado do processo. Eles pensaram que o pessoal da cidade ia ficar revoltado comigo. Você viu como é o povo comigo lá em Anapu? [no dia da segunda audiência, quando chegou na porta do Fórum, o padre foi abraçado por várias pessoas da cidade]. Eu tenho ciência dos meus atos. Quando terminar esse negócio eu quero entrar com pedido de danos morais.

Preparação para batizado de crianças no projeto de assentamento da Mata Preta. O trabalho de base da CPT busca criar laços entre as famílias, com relações de padrinho e madrinha

A acusação do MP diz que o senhor recebeu depósitos na sua conta. Há quem diga que o senhor teria chantageado adversários. Isso aconteceu?

Padre Amaro: Quando fui preso, eu tinha R$ 330 na minha conta. No início aqui em Anapu eu ganhava quatro salários, com plano de saúde. Pelas contas que o advogado fez era para eu ter mais patrimônio. Depois caiu para dois salários e tivemos que pagar pelo plano de saúde. Nunca recebi dinheiro da mão desse homem, do Silvério Fernandes. A questão deles é para dizer que era uma organização criminosa.

Paulo Sérgio Pereira chegou em Anapu, em 2015, vindo de Paragominas (Pará). Ele vive hoje no assentamento Mata Preta, que espera ser regularizado em breve

E a acusação de invasão de propriedade?

Padre Amaro: Nesses anos que estou no Anapu o pessoal ocupou terra sim. Mas se alguém disser que eu liderei é mentira. A Comissão Pastoral da Terra é uma entidade ligada à igreja católica. O papel nosso é dar assessoria aos trabalhadores e trabalhadoras rurais em qualquer tipo de situação em que eles estejam. O trabalho da CPT é dar assessoria e mostrar que o pessoal que ocupa uma terra pública da União tem direito a um pedaço de terra para trabalhar. O papel da CPT é esse, dar formação. O papel não é fazer por eles, mas ajudá-los a andar com seus próprios pés.

Qual o papel do senhor nesse movimento?

Padre Amaro: Vou te dar um exemplo. Você conheceu a Mata Preta [projeto de assentamento em Anapu]. Lá eram quatro glebas de terra na mão de um senhor apenas. Agora são 260 famílias. Até eles conseguirem ficar lá as casas foram queimadas várias vezes. É duro chegar, ver um pai de família dentro do capim com seus filhos, a casa queimada, ainda fumaçando e ao olhar para a sede ver que lá dentro está cheio de guachebas (pistoleiros). Eu fui lá tentar mediar. Naquele momento eu sabia que podia ter pegado uma bala, mas naquela hora de descaso e tristeza, superei tudo e fui conversar com os guachebas, que ficaram de deboche. Eu disse para eles: “mas se está na justiça porque vocês fazem uma covardia dessas?”. Eles responderam que a terra não era deles. Eu disse: “Está na justiça! Se a justiça disser que é do patrão de vocês tudo bem”.

Averson e Ivonete Batista já foram atacados por pistoleiros e esperam há quatro anos a regularização do assentamento onde vivem com os seis filhos e 18 netos, em Anapu.

Qual a estratégia para lidar com a possível criminalização dos movimentos sociais que lutam por reforma agrária, no próximo governo?

Padre Amaro: Vamos sentar, a CPT e todas as entidades e ter paciência, resistência e união. Temos que dar as mãos independente da sigla de cada unidade. O girassol quando nasce durante o dia procura o sol. No momento de frio, quando o sol não aparece o que ele faz? Ele vira um para o outro, se aquece e não morre. Será que não estamos olhando cada um para um lado e defendendo a própria bandeira ou entidade? O momento é de juntar e partir para a luta. Acreditar na vida mesmo quando todos desacreditam. Resistir aonde quer que você esteja. Acreditar no pequeno, pois eles têm suas estratégias de luta e resistência. Muita coisa que vem de cima, nos pacotes, não tem sustentabilidade e nem se segura. Quem segura é quem está na base.

Leia entrevista completa aqui:

“Cruzada contra sucessor de Dorothy Stang” – Repórter Brasil, 06/12/2018: https://bit.ly/2BcK9H5

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