Por Teresa Harari

Sabe aquela música que você descobriu outro dia no Youtube? Ou aquele novo videoclipe que um amigo enviou por Whatsapp? Pois é, hoje em dia é assim: todo mundo escuta, conhece, descobre e compartilha música através do celular ou do computador. Uns preferem procurar artistas e músicas no Youtube, outros têm suas listas de preferidos no Spotify, em sites de letras de música e por aí vai. Além de poder encontrar todas as músicas que queremos em uma busca, hoje em dia podemos ouvir sem precisar baixar, economizando espaço no celular e no computador. Em inglês, isso se chama “streaming”, que significa “transmitindo”.

Foto: Hayoung Jeon/Shutterstock

Essa grande mudança de comportamento se deu graças à tecnologia que avançou e deixou tudo mais fácil, mas também ao fato de que poucas pessoas tem um tocador de CD ou vinil em casa. Atentos à realidade, as gravadoras de música e todos esses sites que deixam os catálogos de artistas perceberam que era mais fácil pagar os artistas pelo número de vezes que a música é ouvida, que ficar tentando vender disco de verdade.

Isso tudo abriu o caminho também para aqueles artistas que não conseguiam ter acesso às grandes gravadoras. E são muitos! Hoje em dia, basta que o artista suba suas músicas na internet, divulgue o material e está lá, pronto para ser descobertos e curtido por todos.

Desde 2011, Borô vem pensando em como ajudar esse movimento para mostrar e promover o carimbó daqui do Oeste do Pará.

Podemos viabilizar a gravação do trabalho desses artistas ou, caso o artista já tenha sua obra gravada, passamos para a próxima etapa de mixagem e masterização. A partir daí, divulgamos nas principais plataformas digitais”, explica Borô.

Grupo Kuatá de Carimbó – Mestre Hermes | Foto: Kevin Gonzalez

Borô, que é agitador cultural na vila e tem contato tanto com músicos como com turistas, percebeu que muitos turistas (e também moradores) tinham dificuldade de encontrar o carimbó de Alter na internet. Sabe por quê? Simples: porque não estava na internet! Com a intenção de apoiar nossos artistas e tudo que é feito aqui, começou a dar uma força para grupos que precisavam gravar, outros que já tinham gravações amadoras mas precisavam mixar e masterizar o material para que o áudio ficasse profissional. Foi assim que no começo do ano ele dava início à criação do Selo Alter do Som. 

O primeiro projeto do Selo foi o EP do Grupo Kuatá de Carimbó. Ainda em fase de pré-lançamento, o Selo lançou três faixas do grupo e organizou uma turnê em São Paulo e Rio de Janeiro em maio deste ano.

“A nossa ida para São Paulo gerou muitos fãs, muitas pessoas que hoje em dia acompanham o Kuatá pela internet. Serviu para a gente ficar muito mais profissional em termos de divulgação e de trabalho”, conta Hermes.

Kuatá de Carimbó

Hoje, sábado 22 de dezembro, lua cheia, o Espaço Alter vai mostrar o segundo projeto e também fazer o lançamento oficial do selo. Composto por 14 faixas autorais, o CD do Movimento de Carimbó do Oeste do Pará, “Vem Carimbolar”, determina um momento importante da salvaguarda de carimbó.

“Esse é um trabalho dos Mestres de Carimbó do Oeste do Pará que se dedicaram, colocaram sua essência e sua musicalidade. Mais uma vez, o Borô, nosso parceiro, através do Selo Alter do Som, faz esse lançamento que para o Movimento é uma alegria, uma festa!”, reconhece Mestre Chico Malta.

Mestres do carimbó do Oeste do Pará | Foto: Kevin Gonzalez

 

Movimento de Carimbó do Oeste do Pará

O selo também aproveita pra abraçar artistas talentosos como a cantora Cristina Caetano e o saxofonista Duka.  

“Nosso carro chefe é o carimbó, mas também estamos abertos para outros ritmos e artistas que possam procurar a gente. Temos uma cena de reggae muito bacana aqui em na região, então estamos abertos ao reggae também”, reitera Borô.

Duka | Foto: Tiago Silveira

Para o produtor cultural Rodrigo Viellas, a profissionalização da cadeia da música é importante para que os artistas de Santarém e Alter do Chão consigam acessar outros públicos que não os locais:

“Belém passou por um processo parecido alguns anos atrás. Artistas como Dona Onete, Gaby Amaranto e Felipe Cordeiro, que eram um pouco conhecidos na cena local, através de parcerias e projetos com selos e gravadoras conseguiram sair dessa bolha local e ganhar o Brasil e o mundo”.

 A festa hoje no Espaço Alter do Chão começa às 20h com o show do Duka e, em seguida, os grupos do Movimento apresentam sua obra. A noite conta também com as participações especiais de Cristina Caetano, Nato Aguiar e Dan Selassie.  

Confira ainda entrevista com Borô:

Como se deu sua paixão pelo carimbó e como foi esse caminho até que se tornasse o coordenador do Movimento de Carimbó do Oeste do Pará?

Eu já era apaixonado pelo carimbó antes de chegar em Alter do Chão, mas era apenas um pequeno flerte. Logo que eu cheguei aqui, quando conheci o carimbó bem regional, através do Hermes, eu me apaixonei na hora. Depois eu conheci o Mestre Chico Malta, que também estava envolvido no projeto Circo em Alter. Na primeira formação do Movimento Roda de Curimbó eu já fazia parte. Então tudo foi uma evolução natural. O processo de patrimonização, quando saiu a primeira consulta pública para fazer o primeiro dossiê sobre o carimbó, me chamou a atenção. Eu logo mandei um email para a equipe notando a falta do carimbó do oeste do Pará no dossiê. Para mim é natural, eu me envolvo com as questões que estou trabalhando. Antes de mim tiveram algumas coordenações do Movimento de Carimbó do Oeste do Pará. Agora há pouco tempo o Mestre Paulinho Barreto me convidou para ser o vice coordenador e eu estou fazendo o melhor ao meu alcance. Está sendo muito bacana.

O Selo Alter do Som é só carimbó?

Não! O nosso foco principal, hoje, é o carimbó, pois o Espaço Alter do Chão tornou-se naturalmente a casa do carimbó aqui em Alter do Chão. Então nosso carro chefe, vamos dizer assim, é o carimbó. Mas também estamos trabalhando com outros artistas, por exemplo, o Duka. Ele tem um trabalho muito diversificado que tem muita influência do carimbó, mas é muito mais abrangente. Ele tem referências de chorinho, samba, e é um trabalho específico, do Duka. Não tem como você dizer que é carimbó, chorinho ou bossa nova. A Cristina Caetano também. Estamos abertos para outros ritmos e artistas que possam procurar a gente. Temos uma cena de reggae muito bacana aqui em na região, então estamos abertos ao reggae também e temos já alguns flertes com novos artistas para lançarmos nas plataformas digitais.

Explique pra gente: o que faz exatamente o Selo Alter do Som hoje e o que você pretende para ele nos próximos anos?

O Selo Alter do Som vem com o intuito de divulgar e levar o trabalho dos artistas daqui da região de Alter do Chão, Santarém e Tapajós em geral para o Brasil afora e além mar. Então podemos viabilizar a gravação do trabalho desses artistas ou, caso o artista já tenha sua obra gravada, passamos para a próxima etapa de mixagem e masterização. A partir daí, divulgamos nas principais plataformas digitais e também apoiamos a comunicação dos artistas. Fazemos também um trabalho para fechar shows, principalmente fora da região. Também viabilizamos e buscamos recursos para gravar CDs e distribuí-los nas principais lojas e plataformas, como está acontecendo agora com o CD do Movimento de Carimbó do Oeste do Pará, “Vem Carimbolar.

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Categories: Carimbó

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