Por Leila Verçosa

Dentre tantas questões levantadas em torno da preservação ambiental talvez uma das causas que mais persista, embora pouco agraciada, seja aquela que une o tema da sustentabilidade à produção e ao tratamento adequado do lixo. O lixo, esse ‘vilão” comum dos lares, ruas, rios e mares, segue crescendo silencioso e incompreendido. Mesmo soando repetitiva a frase “toda mudança começa a partir de você”, ainda assim, é o que melhor descreve o caminho para que verdadeiras transformações aconteçam nesse cenário onde o lixo é o protagonista. Não há mais como deixá-lo nos bastidores, ele precisa ganhar o devido foco nas discussões para além do setor da sustentabilidade, alcançando o entendimento de sua trajetória traçada única e exclusivamente pelas mãos do homem, insistindo numa reeducação ambiental que realmente origina-se de mudanças ocorridas nos hábitos diários de cada um. Seja em casa, na escola, no trabalho, em uma pequena comunidade ou nas grandes capitais, não dá mais pra esquivar-se da responsabilidade de todos juntos e de cada um diante da produção do lixo. A questão é tão jogada para escanteio que, por exemplo, a sociedade (dita, civilizada), diariamente, descarta nas ruas o lixo de suas casas, e quase sempre, de qualquer forma, para que as empresas responsáveis a serviço do Estado o recolham. Responsabilidades a parte, mas, se o caminhão do lixo não passar, por motivos de greve, má organização do serviço ou por qualquer outro motivo, aquele lixo deixado na rua continuará lá, pois a população não vai se encarregar de recolher o lixo já descartado – ele continuará largado para os esfomeados, cães e urubus até que a prefeitura retome a função. Será mesmo essa a melhor maneira de lidar com lixo? E a responsabilidade de quem consome, expira ao descartar o lixo na rua, e “pronto, isso não é mais problema meu”?

Diante desse contexto provocativo, esta coluna dedicará a abordar de forma elucidativa alguns caminhos para compreender e lidar com o lixo nosso de cada dia. Sem querer, num primeiro momento, entrar nos métodos aplicáveis e adequados da reciclagem, do tratamento e destinação do lixo ou de suas várias legislações e obrigatoriedades estaduais e sociais, dentre outras medidas, existe um fator particular, pessoal e determinante sobre o tema: o consumo consciente. Por exemplo, você pode tomar 3 litros de água por dia no trabalho, mas não precisa usar vários copos descartáveis pra isso, inclusive, você pode ter o seu próprio copo trazido de casa. Ou quem sabe começar a negar os canudinhos de plásticos e a usar suas próprias sacolas na feira e no supermercado? São atitudes muito simples, mas que são difíceis de mudar porque são culturais, enraizadas no dia-a-dia de uma sociedade que tem “o olho maior que a barriga” e que é totalmente despreparada para as consequências do próprio consumo desenfreado. Mas é preciso insistir e evoluir diante disso!

Toda vez que alguém consome um produto, qualquer que seja, ele produz um impacto no ambiente, que pode ser tanto positivo quanto negativo a ele. A opção em escolher de forma consciente o que irá se consumir, visando potencializar os impactos positivos e minimizar os impactos negativos desse consumo no ambiente, vem a ser a o que define o termo “consumo consciente”, segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA). O termo se encaixa em “reduzir”, de acordo com o princípio dos 3R’s (Reduzir – Reutilizar – Reciclar), instituído como referência pelo MMA. Sendo importante salientar que o Instituto Akatu, que destina sua meta de sustentabilidade a partir do consumo consciente, já tenha sugerido mais um “R” que vem antes dos três acima citados, vindo ser o  “R” de “Repensar”.

Segundo dados recentes do World Resources Institute (WRI) Brasil, no país, são desperdiçados 41 mil toneladas só de alimentos por ano. Já o Instituto Akatu afirma que o Brasil, em 2015, se tornou mundialmente o quarto maior produtor de resíduos sólidos, atingindo 79,9 milhões de toneladas anuais. Estima-se, ainda, que a média de produção de lixo por pessoa no Brasil seja de 800 gramas a 1 kg de lixo por dia; colocando-se essa média na ponta do lápis diante do número de habitantes do país (aproximadamente 210.000.000 de pessoas, segundo IBGE), o resultado é, no mínimo, assustador. Por outro lado, pensando no viés econômico, o que pode-se especular de desperdício alimentício, tendo em vista só os supermercados do país, por exemplo, no Brasil em 2016, dadas informações da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), é uma prejuízo na quantia de R$7,11 bilhões em alimentos descartados. O consumo impensado, portanto, resulta de uma contemporaneidade marcada pela sociedade do consumo, exaltada pela cultura do “ter”, do descartável, do plástico, da exploração violenta e desmedida dos recursos naturais e animais, da dominação do mercado, da produção em grande escala, da contínua necessidade de consumir novidades, culminando na era do desperdício. É realmente uma visão apocalíptica alimentada por proporções diárias de toneladas de lixo produzidos pelo homem e lançados no planeta.

Como seguir fazendo vista grossa? Tamanha abstração social deve ser substituída por soluções e ações voltadas a esse problema tão explícito e crônico diante de suas catastróficas consequências. Embora a Política dos Resíduos Sólidos já exista desde 2010, garantindo a emancipação dos catadores de materiais recicláveis, além de legislações e medidas bem específicas voltadas para o tema, ainda assim, tanto o Estado quanto a população seguem tratando a produção e a destinação do lixo com desleixo, demagogia e desmerecida ética e atenção.O consumo consciente é uma ação voluntária e solidária de cada cidadão diante de sua responsabilidade social enquanto consumidor e produtor de lixo, cabendo à população tomar as rédeas desse problema, buscando transformar velhos e ultrapassados hábitos relacionados ao próprio consumo e aos descartes diários. Por outro lado, também é papel da população cobrar do Estado o cumprimento das legislação da Política dos Resíduos Sólidos, amplamente elaborada para que verdadeiras melhorias ocorram na gestão de políticas públicas em prol da causa, na capacitação e valorização do imprescindível trabalho das cooperativas de materiais recicláveis e no exercício das práticas diárias de tratamento adequado do lixo. Repensar o consumo é abrir mão, é desapegar, mudar valores e enxergar e projetar um futuro possível e saudável. Escolher não consumir ou consumir com consciência é o primeiro passo para sustentabilidade e começa em você!                                              (Leila Verçosa / 14.02.2019)

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Categories: Lixo

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